Disse o profeta:
Não existe tristeza cristalizada mais cheia de estilo, que ter vivido na cinzenta Londres do começo dos anos oitenta. Sofrer, neste tempo, mais do que uma contingência da vida, transformou-se num sólido e poderoso movimento musical e estilo de vida: a era dark.
E o que isso significa em nosso luminoso trópico e na toda encantada ilha da magia?
Acontece que o sofrimento é universal e atemporal. A música é boa e temos por aqui, de vez em quando, nossos chuvosos dias de vento sul. Daí entra em ação um fã ardoroso do Rogério Skylab, agente secreto n° 1 do movimento anti-treta, Dj Calvin, comandando sua pick-up mágica dos encontros impossíveis. Apesar dos rumores, reza a lenda que essa figura possui, entre seus vários atributos, a incrível capacidade de ser bem quisto entre quase todas as raivosas tribos da cidade. Ele se confessa roquista e toca bateria (em pé) na banda Os Cafonas. E tem as calvinetes, mas isso é assunto pra outra conversa.
Tudo isso e muito mais está no Sins Pub, genial espaço no centro antigo da cidade, localizado numa casa colonial reformada, para realizar uma ponte bem-vinda entre a Londres dark dos anos 80 e a Floripa undertudo do século 21.
Prá facilitar, a casa funciona todas as noites, de terça a domingo e fica na rua Tiradentes, 143, Florianópolis.
Carta ao Canto dos Araçás
Disse o profeta:
Amigo, eu ando cansado, dessa minha nova ruga, dessa mesma velha fuga.
Da falta de coragem pra fazer uma tatuagem . O medo do permanente.
De não me reconhecer mais, nessa cidade que já foi minha.
Será que na rodoviária, ainda rola aquela famosa canja de galinha?
De chorar na sessão da tarde, bem naquela parte,
em que o mocinho beija a mocinha, a menina encontra a cachorrinha.
O inevitável final feliz.
Amigo, eu ando cansado de ficar pensando nessa bandida,
que eu amava e que me abandonou.
Amigo, mesmo assim, notícias suas sempre vão bem.
Como anda a bateira, os projetos, a família?
Tua voz na máquina me fez rir e acreditar
que ainda tem lugar no mundo pra mim e minha mania de choramingar
por coisas que pra ti são mais simples.
Porque tu já tens os calos nos lugares certos.
Abraço
Nilo Neto
Amigo, eu ando cansado, dessa minha nova ruga, dessa mesma velha fuga.
Da falta de coragem pra fazer uma tatuagem . O medo do permanente.
De não me reconhecer mais, nessa cidade que já foi minha.
Será que na rodoviária, ainda rola aquela famosa canja de galinha?
De chorar na sessão da tarde, bem naquela parte,
em que o mocinho beija a mocinha, a menina encontra a cachorrinha.
O inevitável final feliz.
Amigo, eu ando cansado de ficar pensando nessa bandida,
que eu amava e que me abandonou.
Amigo, mesmo assim, notícias suas sempre vão bem.
Como anda a bateira, os projetos, a família?
Tua voz na máquina me fez rir e acreditar
que ainda tem lugar no mundo pra mim e minha mania de choramingar
por coisas que pra ti são mais simples.
Porque tu já tens os calos nos lugares certos.
Abraço
Nilo Neto
Disse o profeta:
agora vou dizer um coisa bem séria pra vocês. eu estou de saco cheio de ficar sofrendo e choramingando pelos cantos. agora ela resolveu cortar contato de vez. e vocês sabem que eu tenho essa coisa com a comunicação. então estou muito puto e de vez em quando ainda tomo uns tragos e choro um pouco. é eu c-h-o-r-o por causa da maldita. hoje foi assim. acordei e estava passando um documentário qualquer na tv sobre uns índios ou uns bichos estranhos, sei lá, sei que deu essa choradeira. e eu fiquei meio surpreso, dizendo baixinho, que porra é essa, que choro é esse. daí passou. é desse jeito, vai e vem. mas o que interessa? tem mais umas outras histórias rolando mas nada que dê liga. que me faça apertar o passo pra chegar mais cedo em casa. fico só zanzando por aí, mamando umas cervejas e falando com umas pessoas, e também sorrindo de vez em quando. quer dizer, a vida normal, louca, estranha, sem pé nem cabeça, de sempre. la vida loca. uma bagunça. uma boa confusão. intensidade e frio na barriga. mas tento manter uma certa aparência de tranquilidade. é bom para os dentes. o sistema está aí pronto pra chutar bem nas bolas de quem faz barulho demais. então é melhor ficar na boa. beber em casa. dar uns bons chupões num pescoço cheiroso de vez em quando. sem pensar muito. sem fazer marola. não faz marola, nilo neto. e tem as palavrinhas pra brincar também. tem a poesia e essa coluna maluca aqui que ninguém lê, mas que dá prazer em escrever.
bom, vou ficando por aqui. tomara que passe logo esse calor. até mais.
agora vou dizer um coisa bem séria pra vocês. eu estou de saco cheio de ficar sofrendo e choramingando pelos cantos. agora ela resolveu cortar contato de vez. e vocês sabem que eu tenho essa coisa com a comunicação. então estou muito puto e de vez em quando ainda tomo uns tragos e choro um pouco. é eu c-h-o-r-o por causa da maldita. hoje foi assim. acordei e estava passando um documentário qualquer na tv sobre uns índios ou uns bichos estranhos, sei lá, sei que deu essa choradeira. e eu fiquei meio surpreso, dizendo baixinho, que porra é essa, que choro é esse. daí passou. é desse jeito, vai e vem. mas o que interessa? tem mais umas outras histórias rolando mas nada que dê liga. que me faça apertar o passo pra chegar mais cedo em casa. fico só zanzando por aí, mamando umas cervejas e falando com umas pessoas, e também sorrindo de vez em quando. quer dizer, a vida normal, louca, estranha, sem pé nem cabeça, de sempre. la vida loca. uma bagunça. uma boa confusão. intensidade e frio na barriga. mas tento manter uma certa aparência de tranquilidade. é bom para os dentes. o sistema está aí pronto pra chutar bem nas bolas de quem faz barulho demais. então é melhor ficar na boa. beber em casa. dar uns bons chupões num pescoço cheiroso de vez em quando. sem pensar muito. sem fazer marola. não faz marola, nilo neto. e tem as palavrinhas pra brincar também. tem a poesia e essa coluna maluca aqui que ninguém lê, mas que dá prazer em escrever.
bom, vou ficando por aqui. tomara que passe logo esse calor. até mais.
Disse o profeta:
Eu nem deveria estar aqui escrevendo. É até meio perigoso. E se me cai umas lágrimas no teclado, quer dizer, estou sujeito até a levar choque. Mas o oficio do poeta é a palavra e a dor, sua grande motivação. Até aí nada de novo. Nada de novo também escrever sobre o amor. Mas este amor, senhoras e senhores, com licença... Quanto mais penso em tudo o que vivemos, mais me dói, menos entendo e daí choro. E olha que nem sou muito disso. Mas a coisa explode aqui dentro e quando vejo, estou soluçando por aí. Noite dessas até no boteco. Que vergonha que eu passei. Nem lembro bem porque, sei que de repente tava lá, no maior chororô com a galera me olhando espantadíssima. Tava até rolando um roque panque e aquele empurra empurra. Bem divertido até. Daí de repente, não mais que de repente, do riso fez-se o pranto...
Eu nem deveria estar aqui escrevendo. É até meio perigoso. E se me cai umas lágrimas no teclado, quer dizer, estou sujeito até a levar choque. Mas o oficio do poeta é a palavra e a dor, sua grande motivação. Até aí nada de novo. Nada de novo também escrever sobre o amor. Mas este amor, senhoras e senhores, com licença... Quanto mais penso em tudo o que vivemos, mais me dói, menos entendo e daí choro. E olha que nem sou muito disso. Mas a coisa explode aqui dentro e quando vejo, estou soluçando por aí. Noite dessas até no boteco. Que vergonha que eu passei. Nem lembro bem porque, sei que de repente tava lá, no maior chororô com a galera me olhando espantadíssima. Tava até rolando um roque panque e aquele empurra empurra. Bem divertido até. Daí de repente, não mais que de repente, do riso fez-se o pranto...
Disse o profeta:
Não deviam deixar os poetas tentar viver esse amor da vida real.
Poetas são: complicados, sensíveis, imaturos e intensos. Não têm força pra lidar com o cotidiano.
Amor de poeta é como borboleta beijando flor.
Deveriam, isso sim, criar uma espécie de colônia de férias de emoções, para que eles pudessem viver e criar poesia, sem criar confusão, nem colocar a si mesmos em situações de grande risco.
Por ciúme e raiva, muitos poetas morrem, matam, viram bebuns ou andarilhos.
Eu mesmo agora ando pensando num jeito de matar esse amor tão dolorido, dentro de mim.
Mas nem isso sei fazer direito.
Dizem que devo me embriagar e buscar o perfume de outras mulheres.
Eu só consigo chorar e deixar recados estranhos, na secretária eletrônica dela.
Não deviam deixar os poetas tentar viver esse amor da vida real.
Poetas são: complicados, sensíveis, imaturos e intensos. Não têm força pra lidar com o cotidiano.
Amor de poeta é como borboleta beijando flor.
Deveriam, isso sim, criar uma espécie de colônia de férias de emoções, para que eles pudessem viver e criar poesia, sem criar confusão, nem colocar a si mesmos em situações de grande risco.
Por ciúme e raiva, muitos poetas morrem, matam, viram bebuns ou andarilhos.
Eu mesmo agora ando pensando num jeito de matar esse amor tão dolorido, dentro de mim.
Mas nem isso sei fazer direito.
Dizem que devo me embriagar e buscar o perfume de outras mulheres.
Eu só consigo chorar e deixar recados estranhos, na secretária eletrônica dela.
mais velho safado
Disse o profeta:
Pra quem gosta, um pouco mais de Charles Bukowski
Dia frouxo. Entrei na piscina de hidromassagem com um boa-vida. O sol estava brilhando e a água borbulhava e fazia redemoinhos, quente. Relaxei. Porque não? Dê um tempo. Tente se sentir melhor. O mundo inteiro é um saco de merda se rasgando. Não posso salvá-lo. Mas recebi muitas cartas de pessoas que disseram que meus livros salvaram suas vidas. Mas não escrevi para isso, escrevi para salvar a minha própria vida. Sempre estive por fora, nunca me adaptei. Descobri isso nos pátios das escolas. E outra coisa que aprendi foi que eu aprendia muito devagar. Os outros caras sabiam tudo; eu não sabia merda nenhuma. Tudo estava imerso em uma luz branca e estonteante. Eu era um idiota. No entanto, mesmo quando eu era um idiota , sabia que não era idiota completo. Eu tinha algum cantinho mim que eu estava protegendo, havia alguma coisa lá. Não importa. Aqui estava eu na piscina e minha vida estava terminando. Não me importava, já tinha visto o circo. Ainda assim, sempre haverá mais coisas para escrever até que me atirem na escuridão ou seja o que for. Isso é que é legal sobre as palavras, permanece indo em frente, buscando coisas, formando frases, se divertindo. Eu estava cheio de palavras e elas ainda saíam em boa forma. Eu tinha sorte. Na piscina. Garganta ruim, dor de cabeça, eu tinha sorte. Velho escritor na piscina, meditando. Legal, legal. Mas o inferno está sempre lá, esperando para se abrir.
Do livro: O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio
==============
me sentei e bebi mais um pouco, pensando no filho da puta que controlava a parte traseira e tinha feito aquilo comigo. não vale a pena ser educado. aí me lembrei da subvenção. será que um homem e uma mulher, não casados, recebem também o benefício? claro que não. deixariam os dois morrendo de fome. e amor. pensando bem, não passa de uma espécie de palavrão. mas tinha qualquer coisa a ver com o que existe entre Linda e eu - amor. era por isso que a gente sofria privações lado a lado, e bebia e morava junto. o que significava o casamento? apenas uma FODA santificada e toda FODA santificada, sempre, em última análise, acaba, infalivelmente, ficando CHATA, se transformando em OBRIGAÇÃO. mas isso é mesmo o que o mundo quer: algum pobre filho da puta, encurralado e infeliz, com uma obrigação a cumprir. ora, que merda, era melhor eu me mudar para a parte mais pobre da cidade e Linda passar a morar com Big Eddie. Big Eddie podia ser idiota, mas pelo menos lhe compraria roupas e lhe poria alguns bifes no estômago; bem mais do que eu estava em condições e fazer.
Bukowski Pernas de Elefante, o fracasso social.
======== ================
ah, que droga. então sentei e abri a garrafa de uísque. enchi dois copos comuns até a borda, tirei os sapatos, as meias, as calças, a camisa e peguei um dos cigarros dela. fiquei sentado só de cueca. sempre faço assim, logo de saída. gosto de me sentir à vontade. se a fulana achar ruim, foda-se. porta da rua, serventia da casa. mas elas nunca vão embora. deve ser por causa do meu jeito. tem umas que dizem que podia ser rei. outras falam coisas bem diferentes. fodam-se.
Charles Bukowski - Crônica de um amor louco
Pra quem gosta, um pouco mais de Charles Bukowski
Dia frouxo. Entrei na piscina de hidromassagem com um boa-vida. O sol estava brilhando e a água borbulhava e fazia redemoinhos, quente. Relaxei. Porque não? Dê um tempo. Tente se sentir melhor. O mundo inteiro é um saco de merda se rasgando. Não posso salvá-lo. Mas recebi muitas cartas de pessoas que disseram que meus livros salvaram suas vidas. Mas não escrevi para isso, escrevi para salvar a minha própria vida. Sempre estive por fora, nunca me adaptei. Descobri isso nos pátios das escolas. E outra coisa que aprendi foi que eu aprendia muito devagar. Os outros caras sabiam tudo; eu não sabia merda nenhuma. Tudo estava imerso em uma luz branca e estonteante. Eu era um idiota. No entanto, mesmo quando eu era um idiota , sabia que não era idiota completo. Eu tinha algum cantinho mim que eu estava protegendo, havia alguma coisa lá. Não importa. Aqui estava eu na piscina e minha vida estava terminando. Não me importava, já tinha visto o circo. Ainda assim, sempre haverá mais coisas para escrever até que me atirem na escuridão ou seja o que for. Isso é que é legal sobre as palavras, permanece indo em frente, buscando coisas, formando frases, se divertindo. Eu estava cheio de palavras e elas ainda saíam em boa forma. Eu tinha sorte. Na piscina. Garganta ruim, dor de cabeça, eu tinha sorte. Velho escritor na piscina, meditando. Legal, legal. Mas o inferno está sempre lá, esperando para se abrir.
Do livro: O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio
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me sentei e bebi mais um pouco, pensando no filho da puta que controlava a parte traseira e tinha feito aquilo comigo. não vale a pena ser educado. aí me lembrei da subvenção. será que um homem e uma mulher, não casados, recebem também o benefício? claro que não. deixariam os dois morrendo de fome. e amor. pensando bem, não passa de uma espécie de palavrão. mas tinha qualquer coisa a ver com o que existe entre Linda e eu - amor. era por isso que a gente sofria privações lado a lado, e bebia e morava junto. o que significava o casamento? apenas uma FODA santificada e toda FODA santificada, sempre, em última análise, acaba, infalivelmente, ficando CHATA, se transformando em OBRIGAÇÃO. mas isso é mesmo o que o mundo quer: algum pobre filho da puta, encurralado e infeliz, com uma obrigação a cumprir. ora, que merda, era melhor eu me mudar para a parte mais pobre da cidade e Linda passar a morar com Big Eddie. Big Eddie podia ser idiota, mas pelo menos lhe compraria roupas e lhe poria alguns bifes no estômago; bem mais do que eu estava em condições e fazer.
Bukowski Pernas de Elefante, o fracasso social.
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ah, que droga. então sentei e abri a garrafa de uísque. enchi dois copos comuns até a borda, tirei os sapatos, as meias, as calças, a camisa e peguei um dos cigarros dela. fiquei sentado só de cueca. sempre faço assim, logo de saída. gosto de me sentir à vontade. se a fulana achar ruim, foda-se. porta da rua, serventia da casa. mas elas nunca vão embora. deve ser por causa do meu jeito. tem umas que dizem que podia ser rei. outras falam coisas bem diferentes. fodam-se.
Charles Bukowski - Crônica de um amor louco
Disse o profeta:
Primeiras horas do primeiro dia, longe da minha esperança preferida.
A torrente de lágrimas cessou. Parece que está se represando em algum lugar do meu peito. Tenho medo da inundação.
Ela foi a mulher que me fez sonhar com uma outra vida. Ela me fez aceitar minha humanidade e ser mais compreensivo com a dos outros. Ela me fez, pela primeira vez, querer ter um filho. Ela se foi. Preferiu pousar suas asas em outro jardim. Gostaria muito de voltar a sonhar, mas agora só tenho o silêncio como companhia.
Bukowski disse, de uma mulher:
- ela passa por mim e deixa um rastro deslumbrante como uma avalanche estraçalhada pelo sol.
Acho que é isso.
Deus tenha misericórdia dos nossos corações. Espero que ela esteja bem. Sinto falta de suas palavras, sua inspiração, suas confusões e sorrisos. Sinto falta daquele jeitinho que ela me chamava de macacão. Como se fosse uma menininha curiosa. O tempo, esse único aliado, há de aliviar nossas dores. Bom mesmo seria dormir uns dois anos.
Primeiras horas do primeiro dia, longe da minha esperança preferida.
A torrente de lágrimas cessou. Parece que está se represando em algum lugar do meu peito. Tenho medo da inundação.
Ela foi a mulher que me fez sonhar com uma outra vida. Ela me fez aceitar minha humanidade e ser mais compreensivo com a dos outros. Ela me fez, pela primeira vez, querer ter um filho. Ela se foi. Preferiu pousar suas asas em outro jardim. Gostaria muito de voltar a sonhar, mas agora só tenho o silêncio como companhia.
Bukowski disse, de uma mulher:
- ela passa por mim e deixa um rastro deslumbrante como uma avalanche estraçalhada pelo sol.
Acho que é isso.
Deus tenha misericórdia dos nossos corações. Espero que ela esteja bem. Sinto falta de suas palavras, sua inspiração, suas confusões e sorrisos. Sinto falta daquele jeitinho que ela me chamava de macacão. Como se fosse uma menininha curiosa. O tempo, esse único aliado, há de aliviar nossas dores. Bom mesmo seria dormir uns dois anos.
o visgo da lesma leprosa
Disse o profeta:
querido diário
tomei um taquaraço no meio dos cornos. tomei mais um nas pernas. caí. olhei pro céu, não tinha céu. fiquei ali jogado no chão muitos dias. de repente aprendi a chorar. aliviou. mas só um pouco. o peso no peito parece que vai me vencer. mas continuo vivo. e viver parece o pior de tudo.
cuidado crianças. pessoas frágeis, afastem-se do amor. nunca caiam na besteira de achar que podem participar desse grande movimento impunemente. você pode passar um ano, uma pessoa, uma paixão. mas um dia o taquaraço vem. e se é bem dado, como foi comigo. neguinho se desorienta. perde o rumo. vira andarilho, bebum, mata, morre.
ainda estou caído. ainda me dói respirar. nem sei quando vou aprender a ver o céu de novo. mas quem passar pelo meu caminho daqui pra frente, vai conhecer outra pessoa.
por enquanto estou concentrado em sobreviver.
caralho, como dói.
querido diário
tomei um taquaraço no meio dos cornos. tomei mais um nas pernas. caí. olhei pro céu, não tinha céu. fiquei ali jogado no chão muitos dias. de repente aprendi a chorar. aliviou. mas só um pouco. o peso no peito parece que vai me vencer. mas continuo vivo. e viver parece o pior de tudo.
cuidado crianças. pessoas frágeis, afastem-se do amor. nunca caiam na besteira de achar que podem participar desse grande movimento impunemente. você pode passar um ano, uma pessoa, uma paixão. mas um dia o taquaraço vem. e se é bem dado, como foi comigo. neguinho se desorienta. perde o rumo. vira andarilho, bebum, mata, morre.
ainda estou caído. ainda me dói respirar. nem sei quando vou aprender a ver o céu de novo. mas quem passar pelo meu caminho daqui pra frente, vai conhecer outra pessoa.
por enquanto estou concentrado em sobreviver.
caralho, como dói.
Serra em Transe
Tal qual um jovem Glauber, cheio de dúvidas e uma certeza: mudar o mundo, subi a Serra Catarinense em busca do santo graal. E mesmo sabendo que para fazê-lo, só conto com a possibilidade da transformação da minha forma de estar no mundo, segui, cheio de esperança, por entre curvas e ventos.
Ao chegar em São Joaquim, o contato com os serranos não poderia ter sido mais doce. Encontrei um povo hospitaleiro e trabalhador, mergulhado num meio ainda cheio de vida, apesar da aparente lentidão dos dias. Sequiosos de mergulhar no século 21 e donos de uma riqueza natural e cultural para eles ainda invisível. Resumindo, vi-me na Desterro dos anos 70. Sentados sobre um pote de ouro, numa terra em que ainda se usa o escambo como meio essencial de sobrevivência.
E como lhes mostrar suas grandes virtudes, sem necessariamente corrompê-las? Como não me transformar no tal forasteiro residente, com ares de gafanhoto devorador de culturas, que hoje tanto me incomoda em minha terra natal, a tal Floripa?
Desenvolvimento sustentável? Palavrinhas tão faladas hoje quanto progresso anos atrás, me parecem ainda não conectadas com a sensibilidade necessária, para arriscar levar àquela gente a notícia de uma prosperidade possível.
Distribuição de renda? Numa cidade onde ainda se beija a mão dos latifundiários, chamando-os de padrinhos, quais coronéis do tão cantado sertão nordestino?
Naturalmente somente trabalhando a base via educação popular, cuidando para não ser confundido com o Salvador, mas portador da semente da boa nova: a cooperação.
Quem sabe numa ONG, talvez chamada Serra Viva, poderia acomodar as ações que englobariam as múltiplas iniciativas paridas do desejo daquele coletivo.
Mas tudo isso acabou sendo engolido pela música das aves, pelo céu incrivelmente azulado, pela comida tão prazerosamente compartilhada, pelas muitas histórias hilariantes e principalmente da sensação de estar vivo, coisa que hoje já não encontro com facilidade em minha moribunda capital.
Sem esquecer, naturalmente, o calor e sorrisos da mulher amada, também serrana, tão presente nos meus dias que já faz parte de tudo.
Ah, dias de paz em São Joaquim. Meu coração está pleno dos teus encantos.
Laurinha, Cris, Padre Blévio, Tia Dite, Tio Braza, Tio Pruda, Dona Mila, Peixe, Carlinhos, Stélio, Família Vieira, Família De Bem e tantos outros...
Salve Serráqueos. E obrigado por não me levarem ao seu líder.
Nilo Neto
Criciúma, 3 de novembro de 2004.
Ao chegar em São Joaquim, o contato com os serranos não poderia ter sido mais doce. Encontrei um povo hospitaleiro e trabalhador, mergulhado num meio ainda cheio de vida, apesar da aparente lentidão dos dias. Sequiosos de mergulhar no século 21 e donos de uma riqueza natural e cultural para eles ainda invisível. Resumindo, vi-me na Desterro dos anos 70. Sentados sobre um pote de ouro, numa terra em que ainda se usa o escambo como meio essencial de sobrevivência.
E como lhes mostrar suas grandes virtudes, sem necessariamente corrompê-las? Como não me transformar no tal forasteiro residente, com ares de gafanhoto devorador de culturas, que hoje tanto me incomoda em minha terra natal, a tal Floripa?
Desenvolvimento sustentável? Palavrinhas tão faladas hoje quanto progresso anos atrás, me parecem ainda não conectadas com a sensibilidade necessária, para arriscar levar àquela gente a notícia de uma prosperidade possível.
Distribuição de renda? Numa cidade onde ainda se beija a mão dos latifundiários, chamando-os de padrinhos, quais coronéis do tão cantado sertão nordestino?
Naturalmente somente trabalhando a base via educação popular, cuidando para não ser confundido com o Salvador, mas portador da semente da boa nova: a cooperação.
Quem sabe numa ONG, talvez chamada Serra Viva, poderia acomodar as ações que englobariam as múltiplas iniciativas paridas do desejo daquele coletivo.
Mas tudo isso acabou sendo engolido pela música das aves, pelo céu incrivelmente azulado, pela comida tão prazerosamente compartilhada, pelas muitas histórias hilariantes e principalmente da sensação de estar vivo, coisa que hoje já não encontro com facilidade em minha moribunda capital.
Sem esquecer, naturalmente, o calor e sorrisos da mulher amada, também serrana, tão presente nos meus dias que já faz parte de tudo.
Ah, dias de paz em São Joaquim. Meu coração está pleno dos teus encantos.
Laurinha, Cris, Padre Blévio, Tia Dite, Tio Braza, Tio Pruda, Dona Mila, Peixe, Carlinhos, Stélio, Família Vieira, Família De Bem e tantos outros...
Salve Serráqueos. E obrigado por não me levarem ao seu líder.
Nilo Neto
Criciúma, 3 de novembro de 2004.
eleições 2004
Disse o profeta:
O que se passa com a alma dos ilhéus, que não nos alcança a chama do socialismo?
De matéria será feita, para que permaneçam ainda velhas lições de "primeiro eu", da desbotada elite burra que ainda molha a mão do Zé Povinho, para que fique pelas ruas com bandeiras, e o infeliz ainda vota nessa proposta, como se não fosse claro: depois de investir, esses caras vão lotear nossa ilha para quem pagar mais.
Em que meando psicosocial estará, escondida e míope, a esperança dessa gente?
Até quando veremos esse fosso que separa os ricos e pobres ficar cada vez mais abismal, com toda a desgraça pessoal e social que impele à violência, ao preconceito e à morte da felicidade?
Muitos minutos de silêncio por essa eleição de 2004.
E que os santos, anjos, orixás, gurus, terapeutas, pastores e outros salvadores de plantão, possam dar conta dessa massa triste que caminha na direção do nada.
Nilo Neto
O que se passa com a alma dos ilhéus, que não nos alcança a chama do socialismo?
De matéria será feita, para que permaneçam ainda velhas lições de "primeiro eu", da desbotada elite burra que ainda molha a mão do Zé Povinho, para que fique pelas ruas com bandeiras, e o infeliz ainda vota nessa proposta, como se não fosse claro: depois de investir, esses caras vão lotear nossa ilha para quem pagar mais.
Em que meando psicosocial estará, escondida e míope, a esperança dessa gente?
Até quando veremos esse fosso que separa os ricos e pobres ficar cada vez mais abismal, com toda a desgraça pessoal e social que impele à violência, ao preconceito e à morte da felicidade?
Muitos minutos de silêncio por essa eleição de 2004.
E que os santos, anjos, orixás, gurus, terapeutas, pastores e outros salvadores de plantão, possam dar conta dessa massa triste que caminha na direção do nada.
Nilo Neto
anarcocacola
Disse o profeta:
Diga não às drogas. Diga não à família. Diga não ao estado. Diga não à pátria.
E lute pelo direito de fugir da realidade apenas por prazer. Para andar pelas ruas sem destino. Pela estranheza legítima. Pelo pleno exercício do nada desejar. Não separar mais o sonho da realidade, a realidade do delírio, o certo do errado, a vida da não-vida.
Diga não às drogas. Diga não à família. Diga não ao estado. Diga não à pátria.
E lute pelo direito de fugir da realidade apenas por prazer. Para andar pelas ruas sem destino. Pela estranheza legítima. Pelo pleno exercício do nada desejar. Não separar mais o sonho da realidade, a realidade do delírio, o certo do errado, a vida da não-vida.
Disse o profeta:
Olhae bando de klingons
Nesse meu afã de ser estiloso, passeio pelos mais diversos jardins blogginianos, em busca da inspiração que o mundo real, faz muito, não me proporciona. Vou lendo uma coisica ali, vendo uma figurinha acolá (coisa que me agrada mais), mas não consigo mesmo emburrecer tanto a ponto de suportar apenas assitir TV, ir ao cinema no shopping, conversar com as amiguinhas e amiguinhos da classe mérdia, e continuo prestando o desserviço à comunidade global de pescar sandices virtuais porraí.
Tem um cara que eu admiro faz tempo. Mas também tenho uma raiva grande dele. No meio dessa confusão, sempre que conigo me concentrar e ler nessa porra de monitor, sem que me ardam os olhos, dou uma passada pelo blog do figura: http://fiambresgasperin.blogspot.com
Popular Tomate. Ao vivo é um transbordar de idéias e palavras. Voltou de sampa, de onde não se vê a rampa. Mas é daqui de Laguna, não tem!
Bom, o cara tem carradas de histórias pra contar.
Eu, como velho admirador do ranzinza, fico por aqui desejando que ele continue por perto. Pero no mucho, certo colega?
Olhae bando de klingons
Nesse meu afã de ser estiloso, passeio pelos mais diversos jardins blogginianos, em busca da inspiração que o mundo real, faz muito, não me proporciona. Vou lendo uma coisica ali, vendo uma figurinha acolá (coisa que me agrada mais), mas não consigo mesmo emburrecer tanto a ponto de suportar apenas assitir TV, ir ao cinema no shopping, conversar com as amiguinhas e amiguinhos da classe mérdia, e continuo prestando o desserviço à comunidade global de pescar sandices virtuais porraí.
Tem um cara que eu admiro faz tempo. Mas também tenho uma raiva grande dele. No meio dessa confusão, sempre que conigo me concentrar e ler nessa porra de monitor, sem que me ardam os olhos, dou uma passada pelo blog do figura: http://fiambresgasperin.blogspot.com
Popular Tomate. Ao vivo é um transbordar de idéias e palavras. Voltou de sampa, de onde não se vê a rampa. Mas é daqui de Laguna, não tem!
Bom, o cara tem carradas de histórias pra contar.
Eu, como velho admirador do ranzinza, fico por aqui desejando que ele continue por perto. Pero no mucho, certo colega?
Disse o profeta:
Tava caminhando, que navegar me dá enjôo, numa destas páginas do Orkut, onde as pessoas fazem seu pequeno perfil, falam um pouco de seus desejos e apresentam fotos. Daí tava nessa, caminha pra cá, olha outra coisa ali, mil nomes, rostos, grupos - tipo "odeio gente burra"- e dei de cara com uma moça, uma moça sorridente, falando que amava seus filhos, seu marido, seu cachorro, e tal, bonitinha ela, cabelo curto... resolvi olhar mais umas fotos que ela havia disponibilizado, quando bato com essa legenda sob uma delas: meu esposo e eu antes da leucemia.
Bom, fiquei meio chocado. Daí, abstraindo toda a dor que isso possa ter significado, a trajetória, a superação (espero), viajei nessa frase mais um pouco - se fosse o título de uma crônica, tipo a vida como ela é, do Nelsão Rodrigues, ou uma coisa mais maluca, do Bukowski.
Sei lá , sei lá onde dava tudo isso.
Tava caminhando, que navegar me dá enjôo, numa destas páginas do Orkut, onde as pessoas fazem seu pequeno perfil, falam um pouco de seus desejos e apresentam fotos. Daí tava nessa, caminha pra cá, olha outra coisa ali, mil nomes, rostos, grupos - tipo "odeio gente burra"- e dei de cara com uma moça, uma moça sorridente, falando que amava seus filhos, seu marido, seu cachorro, e tal, bonitinha ela, cabelo curto... resolvi olhar mais umas fotos que ela havia disponibilizado, quando bato com essa legenda sob uma delas: meu esposo e eu antes da leucemia.
Bom, fiquei meio chocado. Daí, abstraindo toda a dor que isso possa ter significado, a trajetória, a superação (espero), viajei nessa frase mais um pouco - se fosse o título de uma crônica, tipo a vida como ela é, do Nelsão Rodrigues, ou uma coisa mais maluca, do Bukowski.
Sei lá , sei lá onde dava tudo isso.
Disse o profeta:
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande parte e principal parte, composto por seres humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa o que lhe afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pode resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois como à pedra, ou se afastou ou passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e magoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a acção teve de esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque tinha que ficar.
Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto. Quem trabalha, embora esteja mal disposto, é um subsidiário da acção; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
(...)
Como o patrão Vasques, são todos os homens de acção – chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa e frágil, é não mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras de cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se ergue as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se sempre contra si mesmo.
Fernando Pessoa – livro do desassossego – trecho 303
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande parte e principal parte, composto por seres humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa o que lhe afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pode resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois como à pedra, ou se afastou ou passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e magoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a acção teve de esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque tinha que ficar.
Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto. Quem trabalha, embora esteja mal disposto, é um subsidiário da acção; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
(...)
Como o patrão Vasques, são todos os homens de acção – chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa e frágil, é não mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras de cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se ergue as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se sempre contra si mesmo.
Fernando Pessoa – livro do desassossego – trecho 303
Disse o profeta:
Se é pra falar, vou dizer.
Tem um povinho aqui na ilha, na lagoa,
que teve a manha de transferir o orgulho besta de ser classe média ou alta, num país arrebentado pelo fosso cada vez maior entre pobres e ricos,
para a espiritualidade.
Consideram-se alternativos.
Mas permanecem cada vez mais fiéis ao "status quo ante".
Meu nojo. Meu mais profundo nojo.
Não posso querer que aqui seja uma nova Índia.
Falta-me desapego.
E a esses pseudo espiritualizados, falta uma capacidade de se colocar no lugar dos outros.
Ser pobre só pode ser bom, quando todos tivermos o mínimo de comida, casa e educação, para todos.
Que me perdoem o materialismo histórico.
Não dá pra escolher entre o incenso e o pão.
Nilo Neto
Se é pra falar, vou dizer.
Tem um povinho aqui na ilha, na lagoa,
que teve a manha de transferir o orgulho besta de ser classe média ou alta, num país arrebentado pelo fosso cada vez maior entre pobres e ricos,
para a espiritualidade.
Consideram-se alternativos.
Mas permanecem cada vez mais fiéis ao "status quo ante".
Meu nojo. Meu mais profundo nojo.
Não posso querer que aqui seja uma nova Índia.
Falta-me desapego.
E a esses pseudo espiritualizados, falta uma capacidade de se colocar no lugar dos outros.
Ser pobre só pode ser bom, quando todos tivermos o mínimo de comida, casa e educação, para todos.
Que me perdoem o materialismo histórico.
Não dá pra escolher entre o incenso e o pão.
Nilo Neto
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