ela me fez pensar na anais nin. que fez contos eróticos lindos. que escrevia com um ritmo, uma pegada masculina. então fiz o desafio: escreve uma história, em primeira pessoa, como se tu fosses um homem. e saiu esse trabalho aí. eu gostei demais. me fez lembrar um pouco também o pedro juan gutiérrez e o calor cubano. misturando tesão ao desespero de sobreviver, como um homem de pau duro e barriga vazia. vamos ao conto da gabriela galvão. o blog dela tá aí do lado.
“Acordei no meio da noite e beijei aquela nuca marcada pelos biquínis –todos do mesmo modelo, a mãe diz q eh “aquele negocinho” -“Aquele negocinho” eh pq ela ouviu q uma das características dos bipolares eh ter vários itens d uma msma coisa. Fica “tirando sarro” dela e ela acha graça.-. Nenhuma reação. Mais beijos, “passada d barba” –ela diz “esfoliação”- e nd. Mais beijos e bronca! “Ñ precisa fazer nd, fica aih quietinha, fica.” Estava d bruços c/ o rosto para mim mas se virou p/ o lado oposto... O corpo inteiro. Aih pronto, facilitou o trabalho do papai aqui. Eu beijei e "esfoliei" o lado esquerdo inteiro daquele corpo. Cada milímetro daquela pele macia e cheirando um cheiro q parece feito pelo mais laborioso, sutil e refinado perfumista d algum interior d um lugar longe do litoral. Ela gemia bem baixo e d qd em qd se retorcia um pouco. Fui beijando e “esfoliando”-a da nuca ao dedão do peh. Então a virei. Ela estava c/ aquele olhar sério e penetrante q lhe eh tão peculiar e diz mtas coisas; inclusive q ela estah cheia d tesão. Nos demos um beijo destes q ateh estimulam a salivação. Ela parecia não querer q aquele beijo terminasse, mas eu tirei cada braço dela do meu pescoço olhando p/ aqueles olhos “mona-lisa” e continuei o q pretendia: lambi o dedão do peh direito ateh lado direito do pescoço dela. O meio estava reservado para as minhas mãos. Eu queria aquela buceta literalmente em minhas mãos. Mostrei um pouco o qt a quero, mas agora eh a minha vz. Não ia ceder, ñ? Eu t mostro o q posso fazer c/ vc. Eu dei uma palmadinha na bucetinha e ela: “Vem cah, vem.” “Psssiu. Fica aih quietinha, fica.” Pegava no grelo dela como quem fuma um cigarro e apertava os lados, fazia uma pressãozinha, espalmava a mão e passava por toda ela, fazia “bilubilubilu” c/ o dedo do meio no grelo, pegava os dois lados e massageava o meio, amassava ela todinha... Ateh q vi o q eu queria ver: ela tremer, esticar td o corpo e jorrar gozo por todos os póros. Peguei meu pau e fiquei esfregando ali, mas soh por um instante. Em seguida eu meti bem fundo, fiz movimentos rápidos e fortes e gozei muito –e rápido- naquela buceta deliciosa. Ela então me disse: “Ah, eh? Agora eh a minha vz, mas eu vou fazer o contrário: vou massagear a parte d trás do seu corpo inteira e no meio, eu vou usar apenas a minha boca.”
é engraçado que aos 39 anos eu tenha finalmente sido transformado num "coroa".
mas como diz o belchior, o novo sempre vem.
sobre a história da grana, esses poucos honestos que ganham dinheiro são como a cenoura que faz o burro andar. nós outros, estúpidos proletariados, somos quem aciona a pedra de afiar aonde a burguesia apronta a faca, pra nos furar o bucho e dar de comer aos seus vícios e deleites.
é como a história da mega sena. iludidos pela chance de abandonar a dureza da vida, milhões enchem a burra do governo, que devolve um por cento do prêmio, de novo a cenoura, a um feliz vitorioso. e torra o resto em sua farra corrupta e burocrática.
mas tem o seguinte:
os pobres não querem acabar com a pobreza. querem é ficar ricos.
e pra haver alguém rico, alguém que acumule, é preciso sempre que hajam muitos outros pobres trabalhando para e por ele. aquela velha mentira linda do marx, a tal mais valia.
ou ainda:
quem gosta de pobreza é intelectual. pobre gosta de luxo. essa do sábio joãosinho trinta. essa frase me faz pensar no sucesso das novelas da globo. ou aquele programa imbecil de sábado à tarde que a tal angélica faz, mostrando a vida milionária dos globais. tudo é lindo. comida linda, casas lindas, pessoas lindas. alento pra massa rude e ignara.
Carta de Artaud a Anais Nin
( junho de 1933 )
Levei bastante gente, homens e mulheres. Para ver aquela tela maravilhosa, mas foi a primeira vez que eu vi uma emoção artística tocar um ser e fazê-la palpitar com amor. Os seus sentidos estremeceram e eu dei conta de em que você o corpo e o espírito estão formidavelmente ligados, a ponto de uma pura impressão espiritual fazer detonar em seu organismo uma tormenta tão poderosa. Mas nesse casamento insólito é o espírito que predomina sobre o corpo e que terminará por dominar tudo. Sinto em você um mundo de coisas que pedem para nascer se encontrarem , o exorcista adequado.Você própria não tem plena consciência mas você invoca essas coisas com todo seu espírito e sobretudo os seus sentidos, seus sentidos de mulher que, em você, são também os sentidos do espírito .Sendo o que você é devia compreender a grande alegria dolorosa e mesmo a estupefação que experimento por tê-la encontrado assim: de um único golpe vejo... hermeticamente preenchida a minha solidão sentimental infinita, e preenchida de uma maneira que me perturba, o destino me trouxe desesperar de possuir; e como tudo o que o destino traz, tudo o que é inelutável e resolvido pelos céus. Isso me vem contra todos, sem nenhuma hesitação, espontaneamente, de repente, sem medo, lindo de meter medo! Posso acreditar que os mistérios são coisas deste mundo, pois eu e você somos deste mundo, nosso encontro é perfeito demais e me deixa estupefacto por uma espécie de dor. Além disso, há o fato de que meu espírito, minha vida é uma série de iluminações de eclipses e esses eclipses que acontecem em mim, acontecem também em torno de mim, em tudo aquilo que eu toco e não quero ser para quem se aproxima de mim, uma decepção. Você já teve ocasião de ver: em certos pontos tenho intuições, revelações fulgurantes e em outras não sou mais que trevas e idiotices, as coisas mais simples me escapam e torna-se preciso uma compreensão de rara sutileza para admitir, para aceitar essa mistura, uma vez que essas trevas afetam os sentimentos que tosos têm o direito de esperar de mim. Muitas coisas nos aproximam terrivelmente, mas, sobretudo uma delas: nosso silêncio. Você tem um silêncio veemente onde se pode dizer que se sente passar as essências, eu o sinto estranhamente vivo. Como um alçapão aberto sobre o abismo, onde se pode sentir o murmúrio silencioso e secreto da terra. Não há nada de poesia inútil e fabricada em tudo isto que te digo você bem sabe disso. Quero traduzir expressões fortes, impressões reais que tive a respeito de coisas que não se fala habitualmente. Na plataforma da estação, quando eu te disse: somos como duas almas perdidas nos espaços infinitos, senti passar o silêncio móvel que me faltava e que teria sido capaz de me fazer sangrar de alegria. Você me põe face a face comigo e eu sinto que posso não me envergonhar, quero você de abraços violentos, quero entrar em você, repousar em você e que sintamos juntos aquela vibração plena, você e eu aquela vibração que faz brotar à luz do dia as coisas do espírito. Só com você pode um abraço não se inútil, colocando em contato magnetismos contrários e que, aliando-se, a estabeleceria um ciclo perfeito. Já que você habita o mesmo domínio, podia muito bem me dar o que me falta, ser meu complemento. Se nossos espíritos amam as mesmas imagens, desejam as mesmas formas, s mesma aparições fisicamente, organicamente, você é o calor enquanto eu sou o frio, a coisa ondulante, macia, voluptuosa, acariciante, enquanto eu sou o duro sílex, a vegetação calcinada e fóssil, a obsidiana, o duro mineral. Uma necessidade violenta e que é maior que você e eu, empurrou você pra mim, você compreendeu isso imediatamente, você percebeu as formidáveis semelhanças e o bem que poderia me fazer e que está destinada a me fazer mas como eu por momentos, fico cego, tenho medo que o destino a deixe cega também, que você perca bruscamente o contato com todas as descobertas, com essa vida que me deve maravilhar, tenho medo, pra dizer tudo, que o teu corpo, de repente, a domine e que você não me reconheça mais o que, então, num desses períodos em que eu a perca inteiramente.alguma coisa de maravilhoso acaba de começar e isso pode preencher toda a vida, e lhe digo isso com toda a sinceridade de minha alma, toda a serenidade e toda a gravidade de que sou capaz, depois de oito dias. Amanhã fará oito dias que senti minha vida radicalmente transformada e ontem foi a consagração material dessa transformação radical. Me escreva, me escreva uma carta humana, completa, dizendo qual o preço que você cobra pela nossa união e as razões que te levam a dizer que você desconfia de mim em certo plano. Quando te peço que me explicite o preço de nossa união quero é leva-la a fazer brotar diante mim imagens em que se sinta a nossa própria vida.Desde ontem sinto o gosto de uma boca de mulher que me persegue, mas como uma idéia, como uma essência.Esse gosto não é coisa de corpo, ele me desnuda o sentido mesmo de uma alma, ele me ensina muitas coisas sobre toda uma vi9da secreta que sem ele eu nunca conheceria. Tenho nome que minha mãe me deu quando eu tinha quatro anos e que meus íntimos usam comigo: Nanaqui. Ele me descreve na minha inocência e no mais puro de minha vida.
Nanaqui.
Antonin Artaud
Num domingo, no início da tarde, eles conversam pelo msn:
Ela diz:
bem, mas foi o casamento dele, daí reuniu todo o povo da faculdade, bohemia 600ml de balde...não poderia dar em outra..RESSACÃO
Ele diz:
magavilha.
coquinha gelada com uma rodela de limão e muito gelo,
servida numa bandeija, enquanto tu estás deitadinha na espreguiçadeira, pegando sol, e no fundo toca um samba bem baixinho, com aquelas caixas de som invisíveis de hotel, com um leve eco no som, por causa do tamanho da piscina.
nada como a imaginação.
Ela diz:
é verdade...hehe
aquele sol bem quentinho né...
ai ai
Ele diz:
perninha cruzada, chupando no canudinho vermelho,
olhando o copo suado e sentindo o gosto da coca escorrendo pela gargantal,
como um rio bravo pelo canion seco.
Ela diz:
huahahuahkua
Karine alexandrino é uma entidade vulgar. Uma pomba-gira virtual, eletrônica. Ela despeja seus raios de amor latino no meu cerebelo desprotegido. Ela me guia por caminhos que não quero conhecer. Ela me amanhece sem suco de laranja ou torrada. Karine é minha fritura matinal. Meu pastel de carne com ovo.
Eu amo Karine Alexandrino há muito tempo, mas ela felizmente me ignora solenemente. Eu sou um desses bêbados chatos, que ficam babando no ídolo. Coisas do tipo: eu admiro teu trabalho há muito tempo. E no fundo só fica pensando em tirar as calcinhas cheias de babado dela. Eu faço parte da comunidade dela no orkut: “complexo de bukowski”. Eu adicionei o fotolog dela. Eu ouço os sucessos no meu mp3, pelas ruas frias da minha cidade. Mas eu nunca vi nenhum show dela. Eu nunca encontrei a mulher tombada.
Mas eu prefiro assim. Vai que no fundo ela é uma chata? Que tá numa trip narcisista? Que tem joanete?
Bora passear em pasárgada, morena? Isso eu diria pra ela. Mesmo que tivesse que atravessar o balcão do bar esfumaçado. E ela tivesse acompanhada de uma biba japonesa de cabelo verde, que ficasse fazendo cara de nojo pra mim o tempo todo. E a cerveja fosse cara e quente. E só tivesse bavária.
Meu deus, eu sou um fã. Não, deus, por favor, acabe logo com a minha miséria.
louis cypher, do canto da sala, exibia sua risada silenciosa. ela mordeu a pimenta, deu uma bicadinha da marafa. tudo volta ao seu lugar. mas não há mais lugar.
a luz vermelha renitente, continua piscando e deixando impossível perceber nuances. a eletrola carca um barto galeno na veia da puta velha, que chacoalha distraída a chave da porta do quartinho fedido nos fundos.
trambolhos estéticos, lugares antiéticos, personas coléricas, coleiras para céticos.
tudo a preços módicos.
RECEITA DE FRANGO COM WHISKY... Muito boa receita, eu ainda não fiz, estou esperando uma oportunidade, uma festa...quem sabe no meu aniversario...tá perto ..... Ótima pra fazer em dias de festa. Ingredientes:- 01 garrafa de whisky (do bom claro!)- 01 frango de aproximadamente 02 quilos- sal, pimenta e cheiro verde a gosto- 350 ml de azeite de oliva extra Virgem- nozes moídas Modo de preparar:- pegue o frango- beba um copo de whisky- envolver o frango e temperá-lo com sal, pimenta e cheiro verde a gosto.- massageá-lo com azeite.- Pré-aquecer o forno por aproximadamente 10 minutos.- Sirva-se de uma boa dose (caprichada) de whisky enquanto aguarda.- Use as nozes moídas como 'tira gosto'.- Colocar o frango em uma assadeira grande.- Sirva-se de mais duas doses de whisky.- Axustar o terbostato na marca 3 , e debois de uns vinch binutos,botar para assassinar. - digu: assar a ave.- Derrubar uma dose de whisky debois de beia hora, formar abaertura egontrolar a assadura do frango.- Tentar zentar na gadeira, servir-se de uoooooooootra dose sarada de whisky.- Cozer(?), costurar(?), cozinhar, sei lá, voda-se o vrango.- Deixáááá o filho da buta do pato no vorno por umas 4 horas.- Tentar retirar o vrango do vorno. Num vai guemar a mão, garaio!- Mandar mais uma boa dose de whisky pra dentro . . De você, é claro.- Tentar novamente tirar o sacana do vrango do vorno, porque na primeira teenndadiiiva dããão deeeeuuuuuu.- Begar o vrango que gaiu no jão e enjugar o filho da buta com o bano de jão e cologá-lo numa pandeja ou qualquer outra borra, bois avinal você nem gosssssssssta muito dessa bosta mesmo.- Tá Bronto.
Cleonice Bertasso
SUN TZU | ||
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| O princípio geral da guerra é : "manter o estado do inimigo intacto, dominar seu o exército e forçá-lo à rendição é melhor do que esmagá-lo". Assim, a melhor política para as operações militares é obter a vitória, atacando a estratégia do inimigo. A segunda melhor política é desintegrar as alianças do inimigo por meio da diplomacia; em seguida, atacar soldados, lançando um ataque ao inimigo; mas, a pior política é atacar violentamente cidades fortificadas e subjugar territórios.
"...aquele que conhece o inimigo e a si mesmo, lutará cem batalhas sem perigo de derrota; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas." |
Que guerra é essa em que fomos nos meter, companheiro, que estamos todos meio surdos e cegos. Que não sabemos mais o que um dia nos uniu. Que inimigo poderoso é esse que transtorna nossos pensamentos, sem que jamais percebamos qualquer movimento seu? Que a simplicidade que nos fazia saborear a doce fraternidade, a solidariedade e a cooperação, hoje está reduzida a alguns gritos, a bocas tortas, deformadas pelo ódio.
Eu sou um que não entende tanta dor. Eu sou um que sente saudades do futuro que sonhamos juntos. Nossos adversários sempre souberam das nossas fraquezas. Porque combatemos o bom combate, de peito aberto. Mas agora não mais, camarada. Não mais.
Agora vamos recolher os trapos velhos que nos restaram. A pouca memória que ainda sussura em nossos cérebros. E vamos voltar pras árvores, pras cavernas. Vamos ser novamente o vento. E nada mais.
Tá ouvindo? Esse tic tac? Tá comigo. Sou eu. É melhor não chegar perto. É aconselhável procurar outra estrada. A qualquer momento vai acontecer e não é bonito de se ver. Incomoda, gera dúvidas.
Ficar por perto é ter que pensar: o que será que realmente vale à pena? Cada minuto, cada segundo, vai ficando precioso, indispensável. Cada decisão, a última. Pra que viver? Quais são os desejos mais intensos e subterrâneos? Tudo isso vai acontecendo por aqui.
Tic tac. Tic tac. Com quem você passaria sua última noite? Que boca beijaria? Que palavras são basilares nessa sua construção? Uma chuva incessante de perguntas. O tempo todo. Perto de mim.
Vai, foge agora enquanto é possível. Procura a vida calma da civilização. Procura a sombra benigna do status quo.
Aqui só tem uma pressão insuportável. E esse tic tac ensurdecedor. De tão alto, ninguém mais ouve. Mas se você parar um segundo e se conseguir me ver. Num vislumbre poderá perceber que só aqui comigo está o que você procura. Você finalmente me encontrou.
Eu sou o significado mais oculto do teu sonho. O relógio que escorre pela mesa. Eu sou a última curva, antes do abraço, na linha de chegada. Eu sou o prelúdio do grande vazio.
Eu sou o grande amor do mundo.
Tic tac
57º Congresso Internacional do Medo
No princípio é o medo.
Todo boi é da cara preta. Todo bicho é papão. Todo suor é frio. Todo terror, noturno. Há um monstro embaixo de cada cama. Há um monstro embaixo de cada país.
A indústria do medo, as plantações de pavor, o comércio do susto, a genética da fobia, a clonagem do terror. Este, o sentimento do mundo.
Só existem noites. O sol fugiu para outra galáxia, em busca de outra humanidade. Mas as sombras permanecem. E têm medo da própria sombra.
Mas o mal não chega mais. Fica sempre à espreita, na próxima esquina. E as esquinas também não chegam. Estão sempre no próximo passo. Que ninguém dará.
Alcançamos o reino da liberdade, nenhuma porta mais tem chave. Pode ser aberta a qualquer hora por qualquer um. Não há mais miseráveis nem despossuídos. Todos tem o que perder. E não é mais necessário desconfiar de ninguém. Todos são inimigos.
Preparamos uma canção que enlouquece os homens e acorda as crianças. Nosso hino, a ser cantado nas igrejas, nas escolas, nos estádios, em todos os lugares de encontro. Se encontros houvesse.
É obrigatório sonhar. E os sonhos são abismos, ondas, nudez na multidão, pernas que não saem do lugar. E o ar pesado, inquieto, que não se deixa respirar.
Ninguém mais morre de medo. Não se toca nesse assunto, não se pensa essa palavra. Ficamos todos vivos, pressentindo a morte, que a terra havia de comer. Mas já não come. E vomita sua morte, enjoada de você.
Já não se gritam os gritos, que se enredam, guardados na gargantas. Chegou o tempo em que não se diz mais.
Toda mão está suja, toda fotografia dói, toda memória é remorso. O esquecimento está morto.
Toda canção é do exílio. Todo trabalho é forçado. E chegou a vez da esperança. É a única que morre.
Mas não se preocupe, a importância não tem mais importância.
Os sertões murcharam, os mares se afogaram, os desertos sumiram. As flores se mataram, os soldados atrofiaram, as mães desertaram, os ditadores choraram, os democratas fugiram. O que restou? Quem sabe? Não há ninguém para responder. Não há ninguém para perguntar.
A partir de hoje, cada um já nasce com seu próprio pânico. E nas maternidades estão brotando flores amarelas e medrosas.
César Cardoso (na revista Caros Amigos de novembro de 2003)
E apesar de todas as boas intenções das mulheres, que permanecem lutando pela igualdade de direitos e deveres, ainda estamos diante de questões tão antigas e complexas como a presença de um útero e um saco, nas nossas longas discussões noite afora.
Eu me sinto um estrangeiro nessas relações de poder, reforçadas pela pressão do sistema que nos imputa uma troca, tão fatal para o prazer. Vender a própria vida para obtenção de coisas, coisas, coisas, especialmente desenhadas para despertar o desejo, mas nunca saciá-lo.
Como te propor uma forma diferenciada de lidar com essas carências, medos e solidão a dois?
Como desvendar a grande trama que está por trás da trama e manter: a fé, a coragem e a paciência (a sapiência do espírito, como diz B Negão)?
Como te deixar ver que tipo de futuro eu sonhei, que esmagou desse jeito o meu presente, por sentir que não poderei alcançá-lo?
E dentro de mim resta esse imenso carinho, essa desordem de criança no seu quarto de brinquedos. Estar eternamente incompleto e mesmo assim seguir. Como no exercício monstruoso de combinar versos e gestos pra te seduzir.
um bocadinho de clarice, que é bom pra afinar o sangue, clarear as vistas e liberar as vias respiratórias.
O NASCIMENTO DO PRAZER
(trecho)
O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.
POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou
Clarice Lispector
Essa eu desenterrei do dia 11 de março de 2005.
rage
Todos temos o direito de sermos e termos na medida exata de nossas capacidades. Menos quando se fala no amor. Neste universo são outras as leis e a medida do que seremos cobrados pela justiça divina é a do nosso egoísmo. Isso é definitivo. Eu vou pro céu!
A minha mão toca a mão de deus e do diabo, quando te digo: vem. Porque em mim moram o ódio profundo e o amor sem fim.
Dividido e reagrupado pela dor e pela luz do sol, toda força que emanar do meu coração é a de mil terremotos. Cuida que tua alma esteja guardada nessa hora. Minha fúria é autêntica e eficaz. Seu destino é certo e não há tempo para arrependimentos.
Tudo o mais é superfície.
Todo dia será o último.
E a dor, eternamente cobrada pelos anjos do senhor.
Ruído Subterrâneo
É força, é raiva, é abrir um açougue exasperante. Não se trata do que vamos fazer, mas sim do lugar vazio entre dois gestos, não um absoluto mas sim uma pequena porção de energia dirigida a você, para que não morra ainda. Amo você porque nada significa para mim, e se é tão inteligente deveria saber disso.
Seca como uma lápide sem nome. Ignorada como um bolo de cenoura no aniversário de um canibal. Boas tetas, mas se você as leva a sério, é feio Kierkegaard, o que vai ser de nós.
Nunca jantamos à luz de velas, nunca beijei seus lábios nem passei a mão na sua bunda. No meu coração há um buraco. Toda noite eu lhe desejo uma idéia enorme que estilhace seu cérebro enfastiado em mil fragmentos pontiagudos como lascas de explosão. Menina, quando você vier ao pavilhão psiquiátrico da minha prisão não se esqueça do livro de versos da Erica Jong, não esqueça que você agora é um retrato no canto dos masturbadores, dos pensadores, dos imaginadores.
Não tenho cavalo, nem pau grandão... Meu sorriso não vale um milhão de dólares, meu esporte é secreto. Não danço nem canto, mas se alguém machucasse você eu o mataria em cinco segundos.
Efraim Medina Reyes no livro Pistoleiros/Putas e Dementes
A solidão do poema
Inventamos as palavras para sobreviver, para com elas construirmos pensamentos e imagens
Sempre tive a curiosidade de ver o que aconteceria se um poema fosse lido durante um programa de televisão bem popular, por exemplo, o programa do Faustão. Uma pausa, e um bom ator leria um poema, com a precisão e o timbre que a poesia requer. Faustão de lado, microfone na mão, silencioso, sem saber o que fazer. As dançarinas de microssaias com o fôlego suspenso. Apenas o ruído do poema. O que aconteceria? O ibope iria a zero? O país cairia no sono? Haveria protestos na rua, saques? Tenho certeza que se fosse um poema ruim, de um amador, ou um poema maneirista, oblíquo e dissimulado, fino produto da poesia universitária (assim como há um forró universitário, há também uma poesia universitária), se fosse um poema ruim, o país, entorpecido, morreria de tédio. Mas e se fosse um grande poema, de Pessoa, Drummond, ou o poema de Montale que comentarei nessa crônica? Não sei, tenho minhas dúvidas. Além do caos, talvez uma breve suspensão da descrença.
Por que a poesia causa espanto? Além do irremediável tédio, que na ausência da experiência comprovadora no Faustão, ainda precisa ser bem medido. Uma das razões do espanto me parece evidente: a poesia reflete um estado mental do autor (ou de uma ficção do autor). Entreabrimos, por alguns segundos, a consciência de outra pessoa, que nos está vedada por princípio. Somos arrancados de nossa solidão de seres conscientes, e brutalmente devolvidos a nós mesmos, no fim do poema. O que acontece com o poema que nos ilude dessa forma?
A neurociência (a verdadeira, não a de auto-ajuda) tem feito descobertas impressionantes sobre a mente humana. Não faz mais nenhum sentido dizer que a ciência estuda a matéria, o mundo físico, ao passo que a filosofia e a literatura teriam como matéria prima a alma, o mundo mental. Os neurocientistas ultrapassaram a barreira do mental, e investigam, por exemplo, a natureza dos estados conscientes. O que é um estado consciente? É uma percepção de segundo grau. Se você percebe um objeto vermelho, você teve uma experiência da cor, mas o estado consciente nasce quando você percebe que percebe a cor vermelha. Você sente que sente, ou se vê pensando. É daí que nasce o eu, que é uma história que liga todas as sensações, todos os estados mentais. E o mistério (ou drama) é que esse estado consciente é único e intransferível: só quem está consciente da percepção do vermelho pode sentir o que é perceber a cor vermelha. Mesmo que eu e você usemos a palavra "vermelho", eu não posso sentir a sensação por você, e nem você pode senti-la por mim. A cor é individual. Estamos condenados à solidão da mente que percebe.
E os cientistas se vêem num dilema, talvez não insolúvel do ponto de vista científico, mas certamente perene do ponto de vista humano. O caso é o seguinte. Suponha que uma neurocientista brilhante tenha vivido toda a sua vida isolada numa sala branca e preta. Depois de longos estudos, ela se tornou uma grande especialista na percepção da cor. Ela conhece todas as conexões neuronais responsáveis pela percepção da cor, domina todos os aspectos físicos e biológicos da cor. Bem, essa neurocientista sabe como funciona e como se engendra a consciência que percebe a cor vermelha, mas é incapaz de vivenciar a cor vermelha, de senti-la. Portanto, não se pode reduzir um estado consciente a um estado físico. Algo se perde no caminho (essa historinha da neurocientista foi bolada pelo filósofo Frank Jackson). Resultado: podemos abrir o cérebro de alguém, espiar lá dentro, mas ainda assim não sentiremos o que esse cérebro sente. Nem pensaremos o que ele pensa. Somos consciências incomunicáveis.
Como isso se liga à poesia, ou ao Faustão? Acho que uma leitura de um grande poema no horário nobre do domingo lançaria uma ponte inesperada sobre as outras mentes que nos circundam. Sim, o poema engana a consciência isolada, o poema torna o mundo mental algo que pode ser compartilhado. Eu acho que só duas coisas fazem isso no mundo: o poema e o amor. São ilusões essenciais contra a solidão.
O poema de Montale (é um de meus poetas favoritos) que gostaria de comentar ilustra essa fuga da solidão da consciência, e o brusco retorno ao mundo do eu, que se fecha sobre si mesmo, como uma concha. O poema se chama Corne-inglês (um instrumento de sopro), e tem uma estrutura muito simples, em três movimentos. Num primeiro movimento, o poema descreve com precisão poética o ruído de uma tempestade ou ventania (daí o título, evocando o ruído produzido pelo instrumento). (As traduções são minhas).
Il vento che stasera suona attento
- ricorda um forte scotere di lame -
Gli strumenti dei fitti alberi e spazza
Lorizzonte di rame.
(O vento que esta tarde toca atento
- lembrando um choque vibrante de lâminas -
Os instrumentos dos galhos, e sopra
O horizonte de cobre).
O poema cria um correlato objetivo do mundo mental de um indivíduo (que é uma personagem, mas tão real quanto um eu). O poema não imita esse estado mental, o poema busca criar um estado mental similar no leitor/ouvinte. O poema é um transmissor de estados conscientes. É um criador de eus. Entramos inesperadamente num mundo que não é o nosso nem nunca poderá ser nosso, pois é um mundo mental de outra pessoa, inabitável por definição. E o espantoso é que esse efeito ilusório é obtido com as mesmas palavras de todos os dias. E uma palavra é um conceito, não uma sensação. Inventamos as palavras para sobreviver, mas os conceitos que elas evocam são meros instrumentos para a construção de pensamentos e de imagens, e estes são totalmente individuais e inalienáveis. Se eu uso a palavra vermelho e você também, ok, temos um conceito, mas não temos a sensação correspondente. Isso só a solidão produz. E você pensar nisso também é intransferível. Você pensar no vermelho é tão solitário quanto senti-lo.Então por que a prerrogativa do poema de, usando conceitos, produzir imagens e pensamentos que não são nossos, mas que podemos sentir como vindo de dentro de nós mesmos? É ilusão de ótica. O poeta é um ilusionista. Montale cria um vento que toca trombone nas árvores, e varre o horizonte escuro, nebuloso, cor de cobre. Essa associação de imagens parece reproduzir o que se passa na mente de alguém, mas não há palavras para isso, só uma colisão de sílabas. Uma mente não é decomponível
Mas o poeta logo apreende uma possibilidade assustadora e mágica: e se houvesse um mundo além do que posso sentir com o meu eu, um mundo além da sala em preto e branco em que vive a neurocientista inventada pelo filósofo? Um mundo além da caverna da mente, superior ao eu, real mas purificado da ilusão? Comunicável?
Essa ilusão da transcendência é uma tentação constante da poesia. Se a poesia transmite estados da mente, então ela seria, em tese, capaz de evocar um mundo transcendental, compartilhado entre todas as mentes. Mas o que seria esse mundo, senão pura evocação? Essa evocação de um mundo supra-individual corresponde ao segundo movimento do poema:
(nuvole in viaggio, chiari
Reami di lassù! Dalti Eldoradi
Malchiuse porte!)
(nuvens
Nos
Na alta Miragem!).
Montale fala em Eldorado, na minha tradução pus diretamente Miragem. O Eldorado é o sonho do fim do eu solitário. Mas é uma miragem. Como seria esse mundo sem o eu que percebe a cor vermelha?
Finalmente, o poema retorna à evocação da tempestade e termina em si mesmo, no coração do poema:
Il vento che nasce e muore
Nellora che lenta sannera
Suonasse te pure stasera
Scordato instrumento,
Cuore
Se o vento que nasce
E
Pudesse tocar as cordas
Do instrumento desafinado,
O coração.
A tempestade começou lá fora, como entidade externa à mente, mas sensível nela, depois migrou para as altas nuvens, em tese superiores ao eu, mas o ruído da tempestade termina ali, de onde, na verdade, nunca saiu: no coração do poema. Agora não mais sabemos se essa mente que sente a tempestade pode ser nossa ou se é algo que perdemos para sempre, além de nós mesmos.
HERON MOURA | Poeta, professor de Lingüística da UFSC, autor de O Respirante (7Letras), entre outros
E quando ela surta?
E fica andando e falando sem parar, atrás de mim. Vou pela cozinha, pela sala, mexo no controle remoto e nada. Quando eu entro no banheiro ela quer vir junto. Como se não visse nada, não ouvisse nada, além do que ela tem pra falar. Aí eu levanto a mão. Segura a onda, Dona Maria. Já volto. Mas continuo ouvindo a voz dela sem parar do outro lado da porta.
