Disse o profeta:

RECEITA DE FRANGO COM WHISKY... Muito boa receita, eu ainda não fiz, estou esperando uma oportunidade, uma festa...quem sabe no meu aniversario...tá perto ..... Ótima pra fazer em dias de festa. Ingredientes:- 01 garrafa de whisky (do bom claro!)- 01 frango de aproximadamente 02 quilos- sal, pimenta e cheiro verde a gosto- 350 ml de azeite de oliva extra Virgem- nozes moídas Modo de preparar:- pegue o frango- beba um copo de whisky- envolver o frango e temperá-lo com sal, pimenta e cheiro verde a gosto.- massageá-lo com azeite.- Pré-aquecer o forno por aproximadamente 10 minutos.- Sirva-se de uma boa dose (caprichada) de whisky enquanto aguarda.- Use as nozes moídas como 'tira gosto'.- Colocar o frango em uma assadeira grande.- Sirva-se de mais duas doses de whisky.- Axustar o terbostato na marca 3 , e debois de uns vinch binutos,botar para assassinar. - digu: assar a ave.- Derrubar uma dose de whisky debois de beia hora, formar abaertura egontrolar a assadura do frango.- Tentar zentar na gadeira, servir-se de uoooooooootra dose sarada de whisky.- Cozer(?), costurar(?), cozinhar, sei lá, voda-se o vrango.- Deixáááá o filho da buta do pato no vorno por umas 4 horas.- Tentar retirar o vrango do vorno. Num vai guemar a mão, garaio!- Mandar mais uma boa dose de whisky pra dentro . . De você, é claro.- Tentar novamente tirar o sacana do vrango do vorno, porque na primeira teenndadiiiva dããão deeeeuuuuuu.- Begar o vrango que gaiu no jão e enjugar o filho da buta com o bano de jão e cologá-lo numa pandeja ou qualquer outra borra, bois avinal você nem gosssssssssta muito dessa bosta mesmo.- Tá Bronto.

Cleonice Bertasso
Disse o profeta:

SUN TZU


Capítulo 3 - Estratagemas

O princípio geral da guerra é : "manter o estado do inimigo intacto, dominar seu o exército e forçá-lo à rendição é melhor do que esmagá-lo".

Assim, a melhor política para as operações militares é obter a vitória, atacando a estratégia do inimigo. A segunda melhor política é desintegrar as alianças do inimigo por meio da diplomacia; em seguida, atacar soldados, lançando um ataque ao inimigo; mas, a pior política é atacar violentamente cidades fortificadas e subjugar territórios.

Assim, a lei para usar as tropas é:

  • quando você tiver uma força dez vezes superior do que a do inimigo, cerque-o;

  • se sua força superar em cinco vezes, ataque-o;

  • quando você tiver duas vezes mais força que o inimigo, enfrente-o pelos dois lados;

  • se suas forças se equivalem, procure repartir as do inimigo;

  • se suas forças forem inferiores, seja hábil em tomar a defensiva;

  • se você for muito mais fraco que o inimigo, deve saber a hora de empreender uma retirada.

Selo - Exército em posição

"...aquele que conhece o inimigo e a si mesmo, lutará cem batalhas sem perigo de derrota; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas."

Disse o profeta:

Que guerra é essa em que fomos nos meter, companheiro, que estamos todos meio surdos e cegos. Que não sabemos mais o que um dia nos uniu. Que inimigo poderoso é esse que transtorna nossos pensamentos, sem que jamais percebamos qualquer movimento seu? Que a simplicidade que nos fazia saborear a doce fraternidade, a solidariedade e a cooperação, hoje está reduzida a alguns gritos, a bocas tortas, deformadas pelo ódio.
Eu sou um que não entende tanta dor. Eu sou um que sente saudades do futuro que sonhamos juntos. Nossos adversários sempre souberam das nossas fraquezas. Porque combatemos o bom combate, de peito aberto. Mas agora não mais, camarada. Não mais.
Agora vamos recolher os trapos velhos que nos restaram. A pouca memória que ainda sussura em nossos cérebros. E vamos voltar pras árvores, pras cavernas. Vamos ser novamente o vento. E nada mais.
Disse o profeta:

Tá ouvindo? Esse tic tac? Tá comigo. Sou eu. É melhor não chegar perto. É aconselhável procurar outra estrada. A qualquer momento vai acontecer e não é bonito de se ver. Incomoda, gera dúvidas.

Ficar por perto é ter que pensar: o que será que realmente vale à pena? Cada minuto, cada segundo, vai ficando precioso, indispensável. Cada decisão, a última. Pra que viver? Quais são os desejos mais intensos e subterrâneos? Tudo isso vai acontecendo por aqui.

Tic tac. Tic tac. Com quem você passaria sua última noite? Que boca beijaria? Que palavras são basilares nessa sua construção? Uma chuva incessante de perguntas. O tempo todo. Perto de mim.

Vai, foge agora enquanto é possível. Procura a vida calma da civilização. Procura a sombra benigna do status quo.

Aqui só tem uma pressão insuportável. E esse tic tac ensurdecedor. De tão alto, ninguém mais ouve. Mas se você parar um segundo e se conseguir me ver. Num vislumbre poderá perceber que só aqui comigo está o que você procura. Você finalmente me encontrou.

Eu sou o significado mais oculto do teu sonho. O relógio que escorre pela mesa. Eu sou a última curva, antes do abraço, na linha de chegada. Eu sou o prelúdio do grande vazio.

Eu sou o grande amor do mundo.

Tic tac
Disse o profeta:

57º Congresso Internacional do Medo

No princípio é o medo.
Todo boi é da cara preta. Todo bicho é papão. Todo suor é frio. Todo terror, noturno. Há um monstro embaixo de cada cama. Há um monstro embaixo de cada país.
A indústria do medo, as plantações de pavor, o comércio do susto, a genética da fobia, a clonagem do terror. Este, o sentimento do mundo.
Só existem noites. O sol fugiu para outra galáxia, em busca de outra humanidade. Mas as sombras permanecem. E têm medo da própria sombra.
Mas o mal não chega mais. Fica sempre à espreita, na próxima esquina. E as esquinas também não chegam. Estão sempre no próximo passo. Que ninguém dará.
Alcançamos o reino da liberdade, nenhuma porta mais tem chave. Pode ser aberta a qualquer hora por qualquer um. Não há mais miseráveis nem despossuídos. Todos tem o que perder. E não é mais necessário desconfiar de ninguém. Todos são inimigos.
Preparamos uma canção que enlouquece os homens e acorda as crianças. Nosso hino, a ser cantado nas igrejas, nas escolas, nos estádios, em todos os lugares de encontro. Se encontros houvesse.
É obrigatório sonhar. E os sonhos são abismos, ondas, nudez na multidão, pernas que não saem do lugar. E o ar pesado, inquieto, que não se deixa respirar.
Ninguém mais morre de medo. Não se toca nesse assunto, não se pensa essa palavra. Ficamos todos vivos, pressentindo a morte, que a terra havia de comer. Mas já não come. E vomita sua morte, enjoada de você.
Já não se gritam os gritos, que se enredam, guardados na gargantas. Chegou o tempo em que não se diz mais.
Toda mão está suja, toda fotografia dói, toda memória é remorso. O esquecimento está morto.
Toda canção é do exílio. Todo trabalho é forçado. E chegou a vez da esperança. É a única que morre.
Mas não se preocupe, a importância não tem mais importância.
Os sertões murcharam, os mares se afogaram, os desertos sumiram. As flores se mataram, os soldados atrofiaram, as mães desertaram, os ditadores choraram, os democratas fugiram. O que restou? Quem sabe? Não há ninguém para responder. Não há ninguém para perguntar.
A partir de hoje, cada um já nasce com seu próprio pânico. E nas maternidades estão brotando flores amarelas e medrosas.

César Cardoso (na revista Caros Amigos de novembro de 2003)
Disse o profeta:


E apesar de todas as boas intenções das mulheres, que permanecem lutando pela igualdade de direitos e deveres, ainda estamos diante de questões tão antigas e complexas como a presença de um útero e um saco, nas nossas longas discussões noite afora.

Eu me sinto um estrangeiro nessas relações de poder, reforçadas pela pressão do sistema que nos imputa uma troca, tão fatal para o prazer. Vender a própria vida para obtenção de coisas, coisas, coisas, especialmente desenhadas para despertar o desejo, mas nunca saciá-lo.

Como te propor uma forma diferenciada de lidar com essas carências, medos e solidão a dois?

Como desvendar a grande trama que está por trás da trama e manter: a fé, a coragem e a paciência (a sapiência do espírito, como diz B Negão)?

Como te deixar ver que tipo de futuro eu sonhei, que esmagou desse jeito o meu presente, por sentir que não poderei alcançá-lo?

E dentro de mim resta esse imenso carinho, essa desordem de criança no seu quarto de brinquedos. Estar eternamente incompleto e mesmo assim seguir. Como no exercício monstruoso de combinar versos e gestos pra te seduzir.

um bocadinho de clarice, que é bom pra afinar o sangue, clarear as vistas e liberar as vias respiratórias.

Disse o profeta:

O NASCIMENTO DO PRAZER

(trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


Clarice Lispector

Disse o profeta:

Dica de ouro para os capitalistas iniciantes:
nunca faça brincadeiras com a ideologia do chefe,
mesmo que ele se auto proclame o antiguru.
Disse o profeta:

Essa eu desenterrei do dia 11 de março de 2005.

rage

Todos temos o direito de sermos e termos na medida exata de nossas capacidades. Menos quando se fala no amor. Neste universo são outras as leis e a medida do que seremos cobrados pela justiça divina é a do nosso egoísmo. Isso é definitivo. Eu vou pro céu!
A minha mão toca a mão de deus e do diabo, quando te digo: vem. Porque em mim moram o ódio profundo e o amor sem fim.
Dividido e reagrupado pela dor e pela luz do sol, toda força que emanar do meu coração é a de mil terremotos. Cuida que tua alma esteja guardada nessa hora. Minha fúria é autêntica e eficaz. Seu destino é certo e não há tempo para arrependimentos.
Tudo o mais é superfície.
Todo dia será o último.
E a dor, eternamente cobrada pelos anjos do senhor.

Ruído Subterrâneo

Disse o profeta:

É força, é raiva, é abrir um açougue exasperante. Não se trata do que vamos fazer, mas sim do lugar vazio entre dois gestos, não um absoluto mas sim uma pequena porção de energia dirigida a você, para que não morra ainda. Amo você porque nada significa para mim, e se é tão inteligente deveria saber disso.
Seca como uma lápide sem nome. Ignorada como um bolo de cenoura no aniversário de um canibal. Boas tetas, mas se você as leva a sério, é feio Kierkegaard, o que vai ser de nós.
Nunca jantamos à luz de velas, nunca beijei seus lábios nem passei a mão na sua bunda. No meu coração há um buraco. Toda noite eu lhe desejo uma idéia enorme que estilhace seu cérebro enfastiado em mil fragmentos pontiagudos como lascas de explosão. Menina, quando você vier ao pavilhão psiquiátrico da minha prisão não se esqueça do livro de versos da Erica Jong, não esqueça que você agora é um retrato no canto dos masturbadores, dos pensadores, dos imaginadores.
Não tenho cavalo, nem pau grandão... Meu sorriso não vale um milhão de dólares, meu esporte é secreto. Não danço nem canto, mas se alguém machucasse você eu o mataria em cinco segundos.

Efraim Medina Reyes no livro Pistoleiros/Putas e Dementes
Disse o profeta:

A solidão do poema

Inventamos as palavras para sobreviver, para com elas construirmos pensamentos e imagens

Sempre tive a curiosidade de ver o que aconteceria se um poema fosse lido durante um programa de televisão bem popular, por exemplo, o programa do Faustão. Uma pausa, e um bom ator leria um poema, com a precisão e o timbre que a poesia requer. Faustão de lado, microfone na mão, silencioso, sem saber o que fazer. As dançarinas de microssaias com o fôlego suspenso. Apenas o ruído do poema. O que aconteceria? O ibope iria a zero? O país cairia no sono? Haveria protestos na rua, saques? Tenho certeza que se fosse um poema ruim, de um amador, ou um poema maneirista, oblíquo e dissimulado, fino produto da poesia universitária (assim como há um forró universitário, há também uma poesia universitária), se fosse um poema ruim, o país, entorpecido, morreria de tédio. Mas e se fosse um grande poema, de Pessoa, Drummond, ou o poema de Montale que comentarei nessa crônica? Não sei, tenho minhas dúvidas. Além do caos, talvez uma breve suspensão da descrença.

Por que a poesia causa espanto? Além do irremediável tédio, que na ausência da experiência comprovadora no Faustão, ainda precisa ser bem medido. Uma das razões do espanto me parece evidente: a poesia reflete um estado mental do autor (ou de uma ficção do autor). Entreabrimos, por alguns segundos, a consciência de outra pessoa, que nos está vedada por princípio. Somos arrancados de nossa solidão de seres conscientes, e brutalmente devolvidos a nós mesmos, no fim do poema. O que acontece com o poema que nos ilude dessa forma?

A neurociência (a verdadeira, não a de auto-ajuda) tem feito descobertas impressionantes sobre a mente humana. Não faz mais nenhum sentido dizer que a ciência estuda a matéria, o mundo físico, ao passo que a filosofia e a literatura teriam como matéria prima a alma, o mundo mental. Os neurocientistas ultrapassaram a barreira do mental, e investigam, por exemplo, a natureza dos estados conscientes. O que é um estado consciente? É uma percepção de segundo grau. Se você percebe um objeto vermelho, você teve uma experiência da cor, mas o estado consciente nasce quando você percebe que percebe a cor vermelha. Você sente que sente, ou se vê pensando. É daí que nasce o eu, que é uma história que liga todas as sensações, todos os estados mentais. E o mistério (ou drama) é que esse estado consciente é único e intransferível: só quem está consciente da percepção do vermelho pode sentir o que é perceber a cor vermelha. Mesmo que eu e você usemos a palavra "vermelho", eu não posso sentir a sensação por você, e nem você pode senti-la por mim. A cor é individual. Estamos condenados à solidão da mente que percebe.

E os cientistas se vêem num dilema, talvez não insolúvel do ponto de vista científico, mas certamente perene do ponto de vista humano. O caso é o seguinte. Suponha que uma neurocientista brilhante tenha vivido toda a sua vida isolada numa sala branca e preta. Depois de longos estudos, ela se tornou uma grande especialista na percepção da cor. Ela conhece todas as conexões neuronais responsáveis pela percepção da cor, domina todos os aspectos físicos e biológicos da cor. Bem, essa neurocientista sabe como funciona e como se engendra a consciência que percebe a cor vermelha, mas é incapaz de vivenciar a cor vermelha, de senti-la. Portanto, não se pode reduzir um estado consciente a um estado físico. Algo se perde no caminho (essa historinha da neurocientista foi bolada pelo filósofo Frank Jackson). Resultado: podemos abrir o cérebro de alguém, espiar lá dentro, mas ainda assim não sentiremos o que esse cérebro sente. Nem pensaremos o que ele pensa. Somos consciências incomunicáveis.

Como isso se liga à poesia, ou ao Faustão? Acho que uma leitura de um grande poema no horário nobre do domingo lançaria uma ponte inesperada sobre as outras mentes que nos circundam. Sim, o poema engana a consciência isolada, o poema torna o mundo mental algo que pode ser compartilhado. Eu acho que só duas coisas fazem isso no mundo: o poema e o amor. São ilusões essenciais contra a solidão.

O poema de Montale (é um de meus poetas favoritos) que gostaria de comentar ilustra essa fuga da solidão da consciência, e o brusco retorno ao mundo do eu, que se fecha sobre si mesmo, como uma concha. O poema se chama Corne-inglês (um instrumento de sopro), e tem uma estrutura muito simples, em três movimentos. Num primeiro movimento, o poema descreve com precisão poética o ruído de uma tempestade ou ventania (daí o título, evocando o ruído produzido pelo instrumento). (As traduções são minhas).

Il vento che stasera suona attento

- ricorda um forte scotere di lame -

Gli strumenti dei fitti alberi e spazza

Lorizzonte di rame.

(O vento que esta tarde toca atento

- lembrando um choque vibrante de lâminas -

Os instrumentos dos galhos, e sopra

O horizonte de cobre).

O poema cria um correlato objetivo do mundo mental de um indivíduo (que é uma personagem, mas tão real quanto um eu). O poema não imita esse estado mental, o poema busca criar um estado mental similar no leitor/ouvinte. O poema é um transmissor de estados conscientes. É um criador de eus. Entramos inesperadamente num mundo que não é o nosso nem nunca poderá ser nosso, pois é um mundo mental de outra pessoa, inabitável por definição. E o espantoso é que esse efeito ilusório é obtido com as mesmas palavras de todos os dias. E uma palavra é um conceito, não uma sensação. Inventamos as palavras para sobreviver, mas os conceitos que elas evocam são meros instrumentos para a construção de pensamentos e de imagens, e estes são totalmente individuais e inalienáveis. Se eu uso a palavra vermelho e você também, ok, temos um conceito, mas não temos a sensação correspondente. Isso só a solidão produz. E você pensar nisso também é intransferível. Você pensar no vermelho é tão solitário quanto senti-lo.Então por que a prerrogativa do poema de, usando conceitos, produzir imagens e pensamentos que não são nossos, mas que podemos sentir como vindo de dentro de nós mesmos? É ilusão de ótica. O poeta é um ilusionista. Montale cria um vento que toca trombone nas árvores, e varre o horizonte escuro, nebuloso, cor de cobre. Essa associação de imagens parece reproduzir o que se passa na mente de alguém, mas não há palavras para isso, só uma colisão de sílabas. Uma mente não é decomponível em palavras. Mas ainda assim, no poema de Montale, estamos dentro da tempestade, e dentro de alguém que observa a tempestade.

Mas o poeta logo apreende uma possibilidade assustadora e mágica: e se houvesse um mundo além do que posso sentir com o meu eu, um mundo além da sala em preto e branco em que vive a neurocientista inventada pelo filósofo? Um mundo além da caverna da mente, superior ao eu, real mas purificado da ilusão? Comunicável?

Essa ilusão da transcendência é uma tentação constante da poesia. Se a poesia transmite estados da mente, então ela seria, em tese, capaz de evocar um mundo transcendental, compartilhado entre todas as mentes. Mas o que seria esse mundo, senão pura evocação? Essa evocação de um mundo supra-individual corresponde ao segundo movimento do poema:

(nuvole in viaggio, chiari

Reami di lassù! Dalti Eldoradi

Malchiuse porte!)

(nuvens em viagem

Nos
reinos de cima! Entreabrir portas

Na alta Miragem!).

Montale fala em Eldorado, na minha tradução pus diretamente Miragem. O Eldorado é o sonho do fim do eu solitário. Mas é uma miragem. Como seria esse mundo sem o eu que percebe a cor vermelha?

Finalmente, o poema retorna à evocação da tempestade e termina em si mesmo, no coração do poema:

Il vento che nasce e muore

Nellora che lenta sannera

Suonasse te pure stasera

Scordato instrumento,

Cuore

Se o vento que nasce em vão

E
se dissipa na noite

Pudesse tocar as cordas

Do instrumento desafinado,

O coração.

A tempestade começou lá fora, como entidade externa à mente, mas sensível nela, depois migrou para as altas nuvens, em tese superiores ao eu, mas o ruído da tempestade termina ali, de onde, na verdade, nunca saiu: no coração do poema. Agora não mais sabemos se essa mente que sente a tempestade pode ser nossa ou se é algo que perdemos para sempre, além de nós mesmos.

HERON MOURA | Poeta, professor de Lingüística da UFSC, autor de O Respirante (7Letras), entre outros

E quando ela surta?

Disse o profeta:

E fica andando e falando sem parar, atrás de mim. Vou pela cozinha, pela sala, mexo no controle remoto e nada. Quando eu entro no banheiro ela quer vir junto. Como se não visse nada, não ouvisse nada, além do que ela tem pra falar. Aí eu levanto a mão. Segura a onda, Dona Maria. Já volto. Mas continuo ouvindo a voz dela sem parar do outro lado da porta.

o cheiro do ralo

Disse o profeta:

Porque, Oscar Wilde? Porque, Dorian Gray? Porque o meu mundo tem que ser sempre feio? Por que, tudo sobe o ralo para me ver? Porque fui inventar de tomar banho? Porque? Porque tudo tem que ter um porque? Porque a vida não é como os sonhos? Porque na minha vida esses limites se fundem? Porque não fica uma coisa em cada lugar? O que é sonho, no sonho e o demais nos demais? Porque tudo se mistura? Porque tudo se funde, mesmo quando tomo os remédios? Porque o louco, sempre tem que ser eu?

Lourenço Mutarelli
Disse o profeta:

Sabe eu tenho esse hábito estranho, quase rude, de ficar procurando coisas novas. Caminhos pisados não me fazem brilhar os olhos. Mas a vida está me trazendo informações sobre o Bispo do Rosário. Numa revista, numa peça, num trabalho, pela namorada. Eu não sou apaixonado pelo trabalho da Nise (pedras e chutes para a caixa postal 2331). Mas já que a coisa está vindo, eu estou olhando. E estou gostando. Esse texto que saiu na última revista Piauí (17) é muito bonito. É o Daniel Mason fazendo uma ficção sobre a vida do artista. Mas ele se coloca no lugar do Bispo e fala em primeira pessoa.

Disse o profeta: Não li.
Disse o profeta:

DRAGÕES E MOCRÉIAS

O verão ainda não acabou. Para todo o lado que se olha só se vê bundão, coxão peitão, sapatão... Epa! SAPATÃO? É isso mesmo, é na temporada de caça que as armadilhas funcionam e você tem de estar esperto. Qualquer festinha pode virar festa do Lago Ness, se você marcar toca.
Nossos cientistas prepararam com muito carinho e Atalaia Jurubeba, um pequeno estudo sobre os Dragões e as Mocréias para que você esteja mais a par da fauna que assola esta maravilhosa e traiçoeira estação plena de aventura, fantasia e muito césio, drogas e roquenrou!

DRAGÕES (vulgarmente conhecido como Dragão)

Temos de convir que o estudo desta mutação da espécie humana tem evoluído de maneira bastante lenta e irregular. Pouquíssimos pesquisadores são suficientemente piroca das idéias para manter um relacionamento mais constante com os dragões, o que dificulta de sobre maneira estas pesquisas.
Contudo, podemos afirmar que os dragões são (re)conhecidos, de preferência à distância, em três modalidades básicas: os RUINS de comer, os MUITO RUINS de comer e os IMPOSSÍVEIS de comer.
Devido a sua constante intenção de chegar junto, os dragões esbarram na gente nas mais variadas ocasiões e situações, mas apresentam real perigo nas madrugadas e nos fins de noite, principalmente quando a graduação alcoólica extrapola os 51 graus P.L.Z.B. (Pra Lá de Zuzu Bem).
É nessa hora que o dragão adquire suas fantásticas capacidades miméticas, que leva o mais incauto e afoito a achar que “dá pra encarar”. Daí para a ruína moral e física é um passo.
A grande sumidade no assunto, Prof. Dr. Edílson Suplicy, em seu livro “Mitos Afro-Brasileiros, Sexualidade e Alcoolismo”, afirma que os filhos do orixá OGUM, conhecido São Jorge, emérito abatedor de dragões e chegado a um goro e a uma batalha, são os mais suscetíveis a se envolverem com os “dragos”.
Outros dois grandes experts no assunto, os Drs. Wallami Karpano e Bajara Nacajarda, autores do best-seller “As Brumas do Valão” – a mais completa obra já editada sobre o assunto – podem afirmar, depois de décadas de abnegadas pesquisas, que 100% dos casos de conjunção intima com dragões, ocasionam os seguintes efeitos colaterais imediatos: sonolência incontrolável, paumolência total e absoluta e a chamada síndrome de catapulta, que se manifesta quase sempre na manhã seguinte ao contato. Consiste em:
1- Que merda é essa?
2- Vontade incontrolável de baixar porrada.
3- Necessidade incontrolável de arremessar aquilo com força e à distância pela janela mais próxima.
4- Ressaca feladaputa.

Passemos agora à classificação dos dragões para que você possa estar mais apto a identificar e se defender do mal.

1 – DRAGÃO REAL

É o dragão por excelência, não tem jeito de ser outra coisa. É reconhecido a léguas como tal. Geralmente fuma sem parar pra que não se perceba que a fumaça expelida ininterruptamente por seu nariz é de origem orgânica. Tem de a pegar no pé e, quase sempre, não larga nem com macumba ou trovoada. Divide-se em duas subcategorias:
a) DRAGÃO DE PENACHO – tem grana e por isso certo poder de fogo. Normalmente anda cheio de ouro e outros badulaques pendurados. Tem gente que come por interesse. Várias chegam a ser cantoras de samba, funk ou MPB. Outras apresentadoras de TV e do Telejornal HOJE, da Globo.
b) DRAGÃO DI KABILÊRA – Gênero doméstico do dragão (não confundir com a rádio patroa, que é uma qualidade e não gênero). É o dragão mais agulhado, principalmente se vier num kit completo, acompanhado por dois ou três bacurinhos catarrentos chorando pracaralho. Tem gente que tem de comer por obrigação. É assim chamado por estar sempre “di kabilera” com seu consorte que, se for você, é bem feito. Quem mandou casar com dragão?

2 – TURÚ

Gênero de dragão com certa independência pessoal ou capacidade intelectual, o que lhe dá grande periculosidade por que gera uma autonomia acima da média, podendo, assim, estar presente em locais de grande suscetibilidade a seus ataques. Quando enriquece tende a transmutar-se em Dragão de Penacho e, quando se casa, em Dragão di Kabilêra (em geral os piores, já tem argumento para tudo). Os Turús, por suas sensibilidade e capacidade intelectual, podem ser ARTÍSTICOS, ESOTÉRICOS ou MILITANTES. Alguns podem misturar estas qualidades como, por exemplo, ex-cantoras de Rock que se tornam astrólogas. Outras chegam a deputadas pelo PT. Suas subcategorias são:
a) Turú Saracura – Forma um pouco mais rara e menos embuchada de Turú. Com o tempo tende a empenar. Depois da oitava vodka pode se camuflar em Raimunda Falsa Magra. Cuidado. Muitos comem por falta de alternativa.
b) Turú Tamborete: (ou simplesmente Tamborete) – Turú mais encontradiço, de escassa mimética. Com o tempo tende irremediavelmente a embaiacar. Quando em decadência se transforma na terrível Bruaca (ou Canhão), forma agravada e irreversível do Turú, podendo chegar até o estágio Berta Nutels (ou Rose Muraro), que é considerado um passo antes do Homem-elefante. Muito cuidado. Muitos nem comem.

3 – JABURU

É o dragão menos favorecido intelectualmente, não tem, normalmente, opinião formada sobre porra nenhuma e fica só lá presente com sua jaburice e aquela expressão que nos fala ao instinto atávico de arriar a mão naqueles cornos escrotos. Serve quase sempre de acompanhantes dos Turús e guardam um sorumbático silêncio, o qual advêm do medo congênito de falar alguma merda e atrapalhar o bote do Turú. Muitos comem para não ficar à toa. Outros ficam à toa para não comer. Divide-se em três subcategorias. São elas:
a) Jaburanca – quase impossível uma sobrevida muito longa após se carcar uma Jaburanca e o sofrimento físico e moral é muito grande. Abra um ferro-velho em Goiânia, mas não passe a manguaba numa Jaburanca, em hipótese nenhuma. Cabelo na palma da mão não é nada.
b) Jaburéia – um pouco menos grave que a Jaburanca. Há uma certa possibilidade de sobrevivência neste caso, principalmente se esta estiver em evolução para Jabureide. Contudo, não se deve arriscar. Alguns chegam a comer por falta de grana pra compra Playboy. Em todo o caso, se inevitável, aconselha-se o uso de camisinha, venda, walk-man e fronha.
c) Jabureide – a Jabureide é um estado limítrofe entre dragão e mocréia, para qual ainda resta uma esperança de levantando um troco e passando a andar com uma tchurminha mais interessante, ascender à condição de aratanha, gênero de mocréia acompanhante que estudaremos a seguir.

Dependendo do ângulo e da situação, a jabureide pode ser considerada comível (não tem nego que se amarra em jiló e rabo de jacaré com maxixe?), principalmente em situações de seguração de vela em acampamentos, excursões e pequenas viagens. Na falta de gererê, baralho ou violão. Não é difícil de ser cantada e dá mole fácil. Dizem que certos homeopatas unicistas mantêm haréns secretos de Jabureides e Aratanhas para estudar o seu comportamento limítrofe e trocar o óleo quinzenalmente, quando ficar russo.

- MOCRÉIAS

A Mocréia, mais que uma classificação especifica um tipo físico, traduz um jeito de ser, uma maneira de ver e levar a vida. Ou seja, você pode descolar aquele broto maneiro, tremendo aviãozinho e tal, achando que é a gata da sua vida e, de repente, perceber que se trata de uma legítima Mocréia. A Mocréia não é necessariamente escrota, de forma alguma, e é aí que reside seu grande perigo, visto que a convivência mais prolongada com uma Mocréia tende a atrofiar a inteligência e nublar o senso de ridículo. Vamos, pois a classificação:

1 – MOCRÉIA REAL

É a Mocréia por excelência. Bastante ou razoavelmente comível e facilmente classificável e identificável pelo teste BAJARANACA, ou seja: unhão pintado (inclusive no pé), dentinho preto, salto alto, leve mau hálito, cabelinho tipo musa da novela das oito. Quase sempre apresentam ótimas coxas e/ou bundinhas, peitinhos, etc. Chega a animar, se não falar demais. São encontradiças em todas as partes. Foi constatado que de uns anos pra cá a densidade de Mocréia por metro quadrado cresceu consideravelmente.
Wallami Carpano, na revista Civilização Paroara, classificou Elizangela, Angelina Muniz e Magda Cotrof (em ordem inversa) com os tipos mais bem acabados de Mocréia Real.

2 – VADIA ou VADA

É a Mocréia sexualmente mais ativa. Sofre do mal do Mal do Machado, ou seja, não pode ver pau em pé. Então, normalmente, sempre a fim pracaralho dimontão à beça, com aqueles esfuziantes coxões com umas manchinhas de pereba, aqueles peitaço espremidos naquelas blusas tamanho PP e tudo isso em total evidência o tempo todo. Adoram usar modelito “Mistruppa” e não dão a menor chance de defesa caso estejam a fim. Conta-se que, esporadicamente e sem compromisso, muitas vezes constituem um fodão, mas é bom não passar de uma ou duas vezes, nem aparece com a vada em situação social evidente por que, visto serem alcoólatras potenciais, e portarem a SÍNDROME DO VAGALUME (intermitente fogo na toba), as possibilidades de um vexame são bem grandes. Há, também, o perigo de se contrair certas doencinhas incomodas tipo herpes na peia, gonô, cavalo de crista e AIDS. É a mocra ideal para aqueles momentos em que você deixa a namoradinha em casa e cai na madrugada atrás daquilo que o Diabo (e 98% da população do planeta) gosta. Contudo não se esqueça da velha Jontex, não custa tão caro assim...(já uma reforma de jeba...). Segundo especialistas as vadas são de três tipos:
a) A PUTA: dá pra todo mundo, inclusive você.
b) A FILHA DA PUTA: da pra todo mundo, menos para você.
c) A CHATA: não dá pra ninguém, só para você (um caso em um milhão. Tas fudido veio!).

Revista Casseta Popular
Disse o profeta:

"Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais."

Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, L&PM pocket.
Disse o profeta:

Sabe do que, magrinha?

Eu tô liso e reto hoje. Não vem com curva, nada muito sutil ou subliminar. Não quero brincar
de preencher os vazios das idéias, histórias e pessoas. Será que ele lembra? Será que presta atenção no que digo? Será que me ama como eu o amo?
E assim prender minha atenção. Nesse novelo sem fim de respostas sem pergunta.

Olha, fala tudo direitinho como o tio ensinou. Fala de fatos e sentimentos, sem nomes longos, grandes famílias e tramas palacianas. Postos, cargos e medalhas. Holerites, contra-cheques, aposentadoria e número do pis. Ano fiscal, ano eleitoral, ano anal.

Comunica o que realmente importa. A essência saborosa dos teus pensamentos sobre a vida.
Assim eu te ouço com prazer. Assim terás minha grata e emocionada atenção.

Compreendeste, magrinha?

Disse o profeta: descomendo palavras