Disse o profeta:

A solidão do poema

Inventamos as palavras para sobreviver, para com elas construirmos pensamentos e imagens

Sempre tive a curiosidade de ver o que aconteceria se um poema fosse lido durante um programa de televisão bem popular, por exemplo, o programa do Faustão. Uma pausa, e um bom ator leria um poema, com a precisão e o timbre que a poesia requer. Faustão de lado, microfone na mão, silencioso, sem saber o que fazer. As dançarinas de microssaias com o fôlego suspenso. Apenas o ruído do poema. O que aconteceria? O ibope iria a zero? O país cairia no sono? Haveria protestos na rua, saques? Tenho certeza que se fosse um poema ruim, de um amador, ou um poema maneirista, oblíquo e dissimulado, fino produto da poesia universitária (assim como há um forró universitário, há também uma poesia universitária), se fosse um poema ruim, o país, entorpecido, morreria de tédio. Mas e se fosse um grande poema, de Pessoa, Drummond, ou o poema de Montale que comentarei nessa crônica? Não sei, tenho minhas dúvidas. Além do caos, talvez uma breve suspensão da descrença.

Por que a poesia causa espanto? Além do irremediável tédio, que na ausência da experiência comprovadora no Faustão, ainda precisa ser bem medido. Uma das razões do espanto me parece evidente: a poesia reflete um estado mental do autor (ou de uma ficção do autor). Entreabrimos, por alguns segundos, a consciência de outra pessoa, que nos está vedada por princípio. Somos arrancados de nossa solidão de seres conscientes, e brutalmente devolvidos a nós mesmos, no fim do poema. O que acontece com o poema que nos ilude dessa forma?

A neurociência (a verdadeira, não a de auto-ajuda) tem feito descobertas impressionantes sobre a mente humana. Não faz mais nenhum sentido dizer que a ciência estuda a matéria, o mundo físico, ao passo que a filosofia e a literatura teriam como matéria prima a alma, o mundo mental. Os neurocientistas ultrapassaram a barreira do mental, e investigam, por exemplo, a natureza dos estados conscientes. O que é um estado consciente? É uma percepção de segundo grau. Se você percebe um objeto vermelho, você teve uma experiência da cor, mas o estado consciente nasce quando você percebe que percebe a cor vermelha. Você sente que sente, ou se vê pensando. É daí que nasce o eu, que é uma história que liga todas as sensações, todos os estados mentais. E o mistério (ou drama) é que esse estado consciente é único e intransferível: só quem está consciente da percepção do vermelho pode sentir o que é perceber a cor vermelha. Mesmo que eu e você usemos a palavra "vermelho", eu não posso sentir a sensação por você, e nem você pode senti-la por mim. A cor é individual. Estamos condenados à solidão da mente que percebe.

E os cientistas se vêem num dilema, talvez não insolúvel do ponto de vista científico, mas certamente perene do ponto de vista humano. O caso é o seguinte. Suponha que uma neurocientista brilhante tenha vivido toda a sua vida isolada numa sala branca e preta. Depois de longos estudos, ela se tornou uma grande especialista na percepção da cor. Ela conhece todas as conexões neuronais responsáveis pela percepção da cor, domina todos os aspectos físicos e biológicos da cor. Bem, essa neurocientista sabe como funciona e como se engendra a consciência que percebe a cor vermelha, mas é incapaz de vivenciar a cor vermelha, de senti-la. Portanto, não se pode reduzir um estado consciente a um estado físico. Algo se perde no caminho (essa historinha da neurocientista foi bolada pelo filósofo Frank Jackson). Resultado: podemos abrir o cérebro de alguém, espiar lá dentro, mas ainda assim não sentiremos o que esse cérebro sente. Nem pensaremos o que ele pensa. Somos consciências incomunicáveis.

Como isso se liga à poesia, ou ao Faustão? Acho que uma leitura de um grande poema no horário nobre do domingo lançaria uma ponte inesperada sobre as outras mentes que nos circundam. Sim, o poema engana a consciência isolada, o poema torna o mundo mental algo que pode ser compartilhado. Eu acho que só duas coisas fazem isso no mundo: o poema e o amor. São ilusões essenciais contra a solidão.

O poema de Montale (é um de meus poetas favoritos) que gostaria de comentar ilustra essa fuga da solidão da consciência, e o brusco retorno ao mundo do eu, que se fecha sobre si mesmo, como uma concha. O poema se chama Corne-inglês (um instrumento de sopro), e tem uma estrutura muito simples, em três movimentos. Num primeiro movimento, o poema descreve com precisão poética o ruído de uma tempestade ou ventania (daí o título, evocando o ruído produzido pelo instrumento). (As traduções são minhas).

Il vento che stasera suona attento

- ricorda um forte scotere di lame -

Gli strumenti dei fitti alberi e spazza

Lorizzonte di rame.

(O vento que esta tarde toca atento

- lembrando um choque vibrante de lâminas -

Os instrumentos dos galhos, e sopra

O horizonte de cobre).

O poema cria um correlato objetivo do mundo mental de um indivíduo (que é uma personagem, mas tão real quanto um eu). O poema não imita esse estado mental, o poema busca criar um estado mental similar no leitor/ouvinte. O poema é um transmissor de estados conscientes. É um criador de eus. Entramos inesperadamente num mundo que não é o nosso nem nunca poderá ser nosso, pois é um mundo mental de outra pessoa, inabitável por definição. E o espantoso é que esse efeito ilusório é obtido com as mesmas palavras de todos os dias. E uma palavra é um conceito, não uma sensação. Inventamos as palavras para sobreviver, mas os conceitos que elas evocam são meros instrumentos para a construção de pensamentos e de imagens, e estes são totalmente individuais e inalienáveis. Se eu uso a palavra vermelho e você também, ok, temos um conceito, mas não temos a sensação correspondente. Isso só a solidão produz. E você pensar nisso também é intransferível. Você pensar no vermelho é tão solitário quanto senti-lo.Então por que a prerrogativa do poema de, usando conceitos, produzir imagens e pensamentos que não são nossos, mas que podemos sentir como vindo de dentro de nós mesmos? É ilusão de ótica. O poeta é um ilusionista. Montale cria um vento que toca trombone nas árvores, e varre o horizonte escuro, nebuloso, cor de cobre. Essa associação de imagens parece reproduzir o que se passa na mente de alguém, mas não há palavras para isso, só uma colisão de sílabas. Uma mente não é decomponível em palavras. Mas ainda assim, no poema de Montale, estamos dentro da tempestade, e dentro de alguém que observa a tempestade.

Mas o poeta logo apreende uma possibilidade assustadora e mágica: e se houvesse um mundo além do que posso sentir com o meu eu, um mundo além da sala em preto e branco em que vive a neurocientista inventada pelo filósofo? Um mundo além da caverna da mente, superior ao eu, real mas purificado da ilusão? Comunicável?

Essa ilusão da transcendência é uma tentação constante da poesia. Se a poesia transmite estados da mente, então ela seria, em tese, capaz de evocar um mundo transcendental, compartilhado entre todas as mentes. Mas o que seria esse mundo, senão pura evocação? Essa evocação de um mundo supra-individual corresponde ao segundo movimento do poema:

(nuvole in viaggio, chiari

Reami di lassù! Dalti Eldoradi

Malchiuse porte!)

(nuvens em viagem

Nos
reinos de cima! Entreabrir portas

Na alta Miragem!).

Montale fala em Eldorado, na minha tradução pus diretamente Miragem. O Eldorado é o sonho do fim do eu solitário. Mas é uma miragem. Como seria esse mundo sem o eu que percebe a cor vermelha?

Finalmente, o poema retorna à evocação da tempestade e termina em si mesmo, no coração do poema:

Il vento che nasce e muore

Nellora che lenta sannera

Suonasse te pure stasera

Scordato instrumento,

Cuore

Se o vento que nasce em vão

E
se dissipa na noite

Pudesse tocar as cordas

Do instrumento desafinado,

O coração.

A tempestade começou lá fora, como entidade externa à mente, mas sensível nela, depois migrou para as altas nuvens, em tese superiores ao eu, mas o ruído da tempestade termina ali, de onde, na verdade, nunca saiu: no coração do poema. Agora não mais sabemos se essa mente que sente a tempestade pode ser nossa ou se é algo que perdemos para sempre, além de nós mesmos.

HERON MOURA | Poeta, professor de Lingüística da UFSC, autor de O Respirante (7Letras), entre outros

E quando ela surta?

Disse o profeta:

E fica andando e falando sem parar, atrás de mim. Vou pela cozinha, pela sala, mexo no controle remoto e nada. Quando eu entro no banheiro ela quer vir junto. Como se não visse nada, não ouvisse nada, além do que ela tem pra falar. Aí eu levanto a mão. Segura a onda, Dona Maria. Já volto. Mas continuo ouvindo a voz dela sem parar do outro lado da porta.

o cheiro do ralo

Disse o profeta:

Porque, Oscar Wilde? Porque, Dorian Gray? Porque o meu mundo tem que ser sempre feio? Por que, tudo sobe o ralo para me ver? Porque fui inventar de tomar banho? Porque? Porque tudo tem que ter um porque? Porque a vida não é como os sonhos? Porque na minha vida esses limites se fundem? Porque não fica uma coisa em cada lugar? O que é sonho, no sonho e o demais nos demais? Porque tudo se mistura? Porque tudo se funde, mesmo quando tomo os remédios? Porque o louco, sempre tem que ser eu?

Lourenço Mutarelli
Disse o profeta:

Sabe eu tenho esse hábito estranho, quase rude, de ficar procurando coisas novas. Caminhos pisados não me fazem brilhar os olhos. Mas a vida está me trazendo informações sobre o Bispo do Rosário. Numa revista, numa peça, num trabalho, pela namorada. Eu não sou apaixonado pelo trabalho da Nise (pedras e chutes para a caixa postal 2331). Mas já que a coisa está vindo, eu estou olhando. E estou gostando. Esse texto que saiu na última revista Piauí (17) é muito bonito. É o Daniel Mason fazendo uma ficção sobre a vida do artista. Mas ele se coloca no lugar do Bispo e fala em primeira pessoa.

Disse o profeta: Não li.
Disse o profeta:

DRAGÕES E MOCRÉIAS

O verão ainda não acabou. Para todo o lado que se olha só se vê bundão, coxão peitão, sapatão... Epa! SAPATÃO? É isso mesmo, é na temporada de caça que as armadilhas funcionam e você tem de estar esperto. Qualquer festinha pode virar festa do Lago Ness, se você marcar toca.
Nossos cientistas prepararam com muito carinho e Atalaia Jurubeba, um pequeno estudo sobre os Dragões e as Mocréias para que você esteja mais a par da fauna que assola esta maravilhosa e traiçoeira estação plena de aventura, fantasia e muito césio, drogas e roquenrou!

DRAGÕES (vulgarmente conhecido como Dragão)

Temos de convir que o estudo desta mutação da espécie humana tem evoluído de maneira bastante lenta e irregular. Pouquíssimos pesquisadores são suficientemente piroca das idéias para manter um relacionamento mais constante com os dragões, o que dificulta de sobre maneira estas pesquisas.
Contudo, podemos afirmar que os dragões são (re)conhecidos, de preferência à distância, em três modalidades básicas: os RUINS de comer, os MUITO RUINS de comer e os IMPOSSÍVEIS de comer.
Devido a sua constante intenção de chegar junto, os dragões esbarram na gente nas mais variadas ocasiões e situações, mas apresentam real perigo nas madrugadas e nos fins de noite, principalmente quando a graduação alcoólica extrapola os 51 graus P.L.Z.B. (Pra Lá de Zuzu Bem).
É nessa hora que o dragão adquire suas fantásticas capacidades miméticas, que leva o mais incauto e afoito a achar que “dá pra encarar”. Daí para a ruína moral e física é um passo.
A grande sumidade no assunto, Prof. Dr. Edílson Suplicy, em seu livro “Mitos Afro-Brasileiros, Sexualidade e Alcoolismo”, afirma que os filhos do orixá OGUM, conhecido São Jorge, emérito abatedor de dragões e chegado a um goro e a uma batalha, são os mais suscetíveis a se envolverem com os “dragos”.
Outros dois grandes experts no assunto, os Drs. Wallami Karpano e Bajara Nacajarda, autores do best-seller “As Brumas do Valão” – a mais completa obra já editada sobre o assunto – podem afirmar, depois de décadas de abnegadas pesquisas, que 100% dos casos de conjunção intima com dragões, ocasionam os seguintes efeitos colaterais imediatos: sonolência incontrolável, paumolência total e absoluta e a chamada síndrome de catapulta, que se manifesta quase sempre na manhã seguinte ao contato. Consiste em:
1- Que merda é essa?
2- Vontade incontrolável de baixar porrada.
3- Necessidade incontrolável de arremessar aquilo com força e à distância pela janela mais próxima.
4- Ressaca feladaputa.

Passemos agora à classificação dos dragões para que você possa estar mais apto a identificar e se defender do mal.

1 – DRAGÃO REAL

É o dragão por excelência, não tem jeito de ser outra coisa. É reconhecido a léguas como tal. Geralmente fuma sem parar pra que não se perceba que a fumaça expelida ininterruptamente por seu nariz é de origem orgânica. Tem de a pegar no pé e, quase sempre, não larga nem com macumba ou trovoada. Divide-se em duas subcategorias:
a) DRAGÃO DE PENACHO – tem grana e por isso certo poder de fogo. Normalmente anda cheio de ouro e outros badulaques pendurados. Tem gente que come por interesse. Várias chegam a ser cantoras de samba, funk ou MPB. Outras apresentadoras de TV e do Telejornal HOJE, da Globo.
b) DRAGÃO DI KABILÊRA – Gênero doméstico do dragão (não confundir com a rádio patroa, que é uma qualidade e não gênero). É o dragão mais agulhado, principalmente se vier num kit completo, acompanhado por dois ou três bacurinhos catarrentos chorando pracaralho. Tem gente que tem de comer por obrigação. É assim chamado por estar sempre “di kabilera” com seu consorte que, se for você, é bem feito. Quem mandou casar com dragão?

2 – TURÚ

Gênero de dragão com certa independência pessoal ou capacidade intelectual, o que lhe dá grande periculosidade por que gera uma autonomia acima da média, podendo, assim, estar presente em locais de grande suscetibilidade a seus ataques. Quando enriquece tende a transmutar-se em Dragão de Penacho e, quando se casa, em Dragão di Kabilêra (em geral os piores, já tem argumento para tudo). Os Turús, por suas sensibilidade e capacidade intelectual, podem ser ARTÍSTICOS, ESOTÉRICOS ou MILITANTES. Alguns podem misturar estas qualidades como, por exemplo, ex-cantoras de Rock que se tornam astrólogas. Outras chegam a deputadas pelo PT. Suas subcategorias são:
a) Turú Saracura – Forma um pouco mais rara e menos embuchada de Turú. Com o tempo tende a empenar. Depois da oitava vodka pode se camuflar em Raimunda Falsa Magra. Cuidado. Muitos comem por falta de alternativa.
b) Turú Tamborete: (ou simplesmente Tamborete) – Turú mais encontradiço, de escassa mimética. Com o tempo tende irremediavelmente a embaiacar. Quando em decadência se transforma na terrível Bruaca (ou Canhão), forma agravada e irreversível do Turú, podendo chegar até o estágio Berta Nutels (ou Rose Muraro), que é considerado um passo antes do Homem-elefante. Muito cuidado. Muitos nem comem.

3 – JABURU

É o dragão menos favorecido intelectualmente, não tem, normalmente, opinião formada sobre porra nenhuma e fica só lá presente com sua jaburice e aquela expressão que nos fala ao instinto atávico de arriar a mão naqueles cornos escrotos. Serve quase sempre de acompanhantes dos Turús e guardam um sorumbático silêncio, o qual advêm do medo congênito de falar alguma merda e atrapalhar o bote do Turú. Muitos comem para não ficar à toa. Outros ficam à toa para não comer. Divide-se em três subcategorias. São elas:
a) Jaburanca – quase impossível uma sobrevida muito longa após se carcar uma Jaburanca e o sofrimento físico e moral é muito grande. Abra um ferro-velho em Goiânia, mas não passe a manguaba numa Jaburanca, em hipótese nenhuma. Cabelo na palma da mão não é nada.
b) Jaburéia – um pouco menos grave que a Jaburanca. Há uma certa possibilidade de sobrevivência neste caso, principalmente se esta estiver em evolução para Jabureide. Contudo, não se deve arriscar. Alguns chegam a comer por falta de grana pra compra Playboy. Em todo o caso, se inevitável, aconselha-se o uso de camisinha, venda, walk-man e fronha.
c) Jabureide – a Jabureide é um estado limítrofe entre dragão e mocréia, para qual ainda resta uma esperança de levantando um troco e passando a andar com uma tchurminha mais interessante, ascender à condição de aratanha, gênero de mocréia acompanhante que estudaremos a seguir.

Dependendo do ângulo e da situação, a jabureide pode ser considerada comível (não tem nego que se amarra em jiló e rabo de jacaré com maxixe?), principalmente em situações de seguração de vela em acampamentos, excursões e pequenas viagens. Na falta de gererê, baralho ou violão. Não é difícil de ser cantada e dá mole fácil. Dizem que certos homeopatas unicistas mantêm haréns secretos de Jabureides e Aratanhas para estudar o seu comportamento limítrofe e trocar o óleo quinzenalmente, quando ficar russo.

- MOCRÉIAS

A Mocréia, mais que uma classificação especifica um tipo físico, traduz um jeito de ser, uma maneira de ver e levar a vida. Ou seja, você pode descolar aquele broto maneiro, tremendo aviãozinho e tal, achando que é a gata da sua vida e, de repente, perceber que se trata de uma legítima Mocréia. A Mocréia não é necessariamente escrota, de forma alguma, e é aí que reside seu grande perigo, visto que a convivência mais prolongada com uma Mocréia tende a atrofiar a inteligência e nublar o senso de ridículo. Vamos, pois a classificação:

1 – MOCRÉIA REAL

É a Mocréia por excelência. Bastante ou razoavelmente comível e facilmente classificável e identificável pelo teste BAJARANACA, ou seja: unhão pintado (inclusive no pé), dentinho preto, salto alto, leve mau hálito, cabelinho tipo musa da novela das oito. Quase sempre apresentam ótimas coxas e/ou bundinhas, peitinhos, etc. Chega a animar, se não falar demais. São encontradiças em todas as partes. Foi constatado que de uns anos pra cá a densidade de Mocréia por metro quadrado cresceu consideravelmente.
Wallami Carpano, na revista Civilização Paroara, classificou Elizangela, Angelina Muniz e Magda Cotrof (em ordem inversa) com os tipos mais bem acabados de Mocréia Real.

2 – VADIA ou VADA

É a Mocréia sexualmente mais ativa. Sofre do mal do Mal do Machado, ou seja, não pode ver pau em pé. Então, normalmente, sempre a fim pracaralho dimontão à beça, com aqueles esfuziantes coxões com umas manchinhas de pereba, aqueles peitaço espremidos naquelas blusas tamanho PP e tudo isso em total evidência o tempo todo. Adoram usar modelito “Mistruppa” e não dão a menor chance de defesa caso estejam a fim. Conta-se que, esporadicamente e sem compromisso, muitas vezes constituem um fodão, mas é bom não passar de uma ou duas vezes, nem aparece com a vada em situação social evidente por que, visto serem alcoólatras potenciais, e portarem a SÍNDROME DO VAGALUME (intermitente fogo na toba), as possibilidades de um vexame são bem grandes. Há, também, o perigo de se contrair certas doencinhas incomodas tipo herpes na peia, gonô, cavalo de crista e AIDS. É a mocra ideal para aqueles momentos em que você deixa a namoradinha em casa e cai na madrugada atrás daquilo que o Diabo (e 98% da população do planeta) gosta. Contudo não se esqueça da velha Jontex, não custa tão caro assim...(já uma reforma de jeba...). Segundo especialistas as vadas são de três tipos:
a) A PUTA: dá pra todo mundo, inclusive você.
b) A FILHA DA PUTA: da pra todo mundo, menos para você.
c) A CHATA: não dá pra ninguém, só para você (um caso em um milhão. Tas fudido veio!).

Revista Casseta Popular
Disse o profeta:

"Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais."

Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, L&PM pocket.
Disse o profeta:

Sabe do que, magrinha?

Eu tô liso e reto hoje. Não vem com curva, nada muito sutil ou subliminar. Não quero brincar
de preencher os vazios das idéias, histórias e pessoas. Será que ele lembra? Será que presta atenção no que digo? Será que me ama como eu o amo?
E assim prender minha atenção. Nesse novelo sem fim de respostas sem pergunta.

Olha, fala tudo direitinho como o tio ensinou. Fala de fatos e sentimentos, sem nomes longos, grandes famílias e tramas palacianas. Postos, cargos e medalhas. Holerites, contra-cheques, aposentadoria e número do pis. Ano fiscal, ano eleitoral, ano anal.

Comunica o que realmente importa. A essência saborosa dos teus pensamentos sobre a vida.
Assim eu te ouço com prazer. Assim terás minha grata e emocionada atenção.

Compreendeste, magrinha?

Disse o profeta: descomendo palavras
Disse o profeta:

o comedor de palavras sonhava em ter seu nome traduzido para: o inglês, o espanhol, o árabe e o mandarim. Mas nunca dava tempo. A fome era maior.
Disse o profeta:

o comedor de palavras passou uns tempos na prisão. foi pego surrupiando uma alentada antologia do vinicius de moraes, capa dura, verde, letras em dourado. em juízo alegou furto famélico.
Disse o profeta:

o cardápio do comedor de palavras costuma ser o da língua de camões. eventualmente ele se arrisca num anglicismo. certa feita ele descobriu que o ideograma chinês do amor, se pronuncia ai. e teve um orgasmo gastronômico literário.
Disse o profeta:

o comedor de palavras adora quase. em um de seus longos cafés da manhã, ele me confessou que quase não é de difícil digestão, embora muito saborosa. e geralmente vem acompanhada: quase emocionado, quase dia claro, quase nunca...
Disse o profeta:

o comedor de palavras está às turras com o espelho. quando ali mostra um texto escrito, aparece invertido. ele diz que lhes altera gravemente o sabor. ficam impalatáveis.
Disse o profeta:

o comedor de palavras está morrendo de inanição. roubaram-lhe o aurélio cuidadosamente conservado no congelador. agora esmola verbos e substantivos pelas esquinas (adjetivos são acepipes raros). mas a cidade passa muda diante dele.
Disse o profeta:

Em comentário na comunidade do orkut: "Eu posso não ter amor-próprio, mas sei do que sou capaz!"

A ilusão é a base da sobrevivência.
O consumo é o passaporte da felicidade.
E tudo é definitivamente uma merda.
Disse o profeta:

Achei mais uma figura. Linda Marx:

-Ei Deus,o que você faria se eu desafiasse sua vontade, se lutasse contra o que vc quer e contra o que acha que está certo? O que você faria, quem seria você se eu desconsiderasse sua presença, se queimasse seus livros e riscasse todos os seus discos antigos? Hein? Escute Deus, de uma vez por todas, preste bem atenção...
-Desculpe interrompê-la Srta. Linda Marxs,mas se eu fosse você não faria isso...Sua arrogância está ultrapassando os limites do aceitável e terei que aplicar uma correção de praxe para manter a ordem!
-E o que será agora, hein Deus? Furacão, tempestade? Pensa que tenho medo de você?!?
-Cólica Linda Marxs; Estou certo que você se lembra bem...
Ok.Deus tem sempre razão.

O link tá aí do lado.
Disse o profeta:

Perdi o mapa que me levava ao meu lugar no mundo. Desisti de caminhar. Daí agora parece que lá longe estou reconhecendo algumas coisinhas. Serão sorrisos?
Disse o profeta:


estou tentando achar o fio da meada que possa me trazer de volta ao convívio com os terráqueos. isso significa rever algumas decisões tomadas em momentos de grande dor e desespero. talvez isso esteja afetando também nossa singela construção. acreditar em algumas coisas também signfica desistir da segurança de outras. esse medo pode acender o rastilho de pólvora que explode o paiol.
mas por trás de tudo reside a força insofismável força da vida. que vai cicatrizando feridas impossíveis e colocando o barco de volta a seu rumo. em resumo, tenho sofrido e talvez isso me faça arisco. mas vou tentar aliviar alguns sintomas desse movimento.
Disse o profeta:

Esse é do belo blog da Fernanda Oliviera
http://abertoparaaenergia.blogspot.com/

LOUCOS E SANTOS - OSCAR WILDE

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice.Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."