Disse o profeta:
A internet tá cheia de erros e curvas e disfarces. Justamente essa possibilidade de ser praticamente anônimo abre as portas para as mais variadas manifestações de medo e delírio, como no título do filme (Fear and Loathin in Las Vegas). Então a gente se depara com todo tipo de coisa. Eu hoje fui apresentado para Karla Hack (http://www.orkut.com/Album.aspx?uid=4441939947880800137). Gosto de imaginar que é um homem escrevendo como se fosse mulher. Mas no meio daquela selva de palavras, encontrei umas provocativas que me agradaram. Coisa de mulher fatal, sente só
- “Nossa” história –
Esta louca anedota de dois,
Contudo individualizados,
Perdidos na procura
por alicerces em outros
Mais instáveis que nós
Espero e Nego
Afetei sua vida?
Seus dias foram cinzas?
Provou do frio?
Flertou com a solidão apaixonada?
Espero e Nego e Amo.
Karla Hack dos Santos
Disse o profeta:
O que há de originalidade nisso tudo? De que vale nadar nesse mar de informações? Desbravar essa selva de idéias? Afinal tudo está mais do que dito e repetido. Somos grão de areia na praia, gota d'água no oceano. Ínfima partícula condenada a vagar pelo infinito. E de vez em quando pinta uma ilusão. Parece que alguém nos ouve. Está atento a nossos sentimentos e impressões. Então nosso eguinho incha, infla, parece que vai voar a qualquer momento. Para daí a pouco cair novamente. Ao percebermos que o objeto da paixão estava em busca de um espelho, no qual possa se ver, admirar-se e a seus maravilhosos atos. E, como diz (mais uma vez) Caetano: "É que narciso acha feio o que não é espelho". Tudo não passa de um jogo triste onde estamos condenados a mais dor e decepção. Não fosse essa força irresistível do instinto, haveria de viver uma vida de solidão pacífica. Então aí está, não tem saída. Pra onde se correr, aí estará o tombo.
Mais um pequeno texto recheado de esperança do seu...
O que há de originalidade nisso tudo? De que vale nadar nesse mar de informações? Desbravar essa selva de idéias? Afinal tudo está mais do que dito e repetido. Somos grão de areia na praia, gota d'água no oceano. Ínfima partícula condenada a vagar pelo infinito. E de vez em quando pinta uma ilusão. Parece que alguém nos ouve. Está atento a nossos sentimentos e impressões. Então nosso eguinho incha, infla, parece que vai voar a qualquer momento. Para daí a pouco cair novamente. Ao percebermos que o objeto da paixão estava em busca de um espelho, no qual possa se ver, admirar-se e a seus maravilhosos atos. E, como diz (mais uma vez) Caetano: "É que narciso acha feio o que não é espelho". Tudo não passa de um jogo triste onde estamos condenados a mais dor e decepção. Não fosse essa força irresistível do instinto, haveria de viver uma vida de solidão pacífica. Então aí está, não tem saída. Pra onde se correr, aí estará o tombo.
Mais um pequeno texto recheado de esperança do seu...
Disse o profeta:
Congestionamento de vassouras na convenção das bruxas.
Os semáforos, enfeitiçados, piscam em todas as cores.
Microcontos - Carlos Seabra
http://cseabra.utopia.com.br/microcontos/
Congestionamento de vassouras na convenção das bruxas.
Os semáforos, enfeitiçados, piscam em todas as cores.
Microcontos - Carlos Seabra
http://cseabra.utopia.com.br/microcontos/
Disse o profeta:
Quero dizer que não escrevo (posto, do inglês aportuguesado, postar, como se diz agora) aqui todo dia, ou com alguma regularidade, por que nunca foi essa a proposta. É pra quando tem algo pra dizer. Senão transcrevo alguma coisa legal que esteja lendo. Não é bem um diário. Tem elementos cotidianos, mais ou menos banais. Tem reflexões mais profundas. Tem reclamação barata. Tem chute estiloso. É uma salada. Eu gosto de ler o meu blog. Eu me orgulho dele. Deve ter um ou outro que leia. Mas não sou popular. Não trago uma mensagem positiva. Não tenho uma vida glamourosa. Não viajo. Não conheço ninguém famoso. Tenho lá uma vida interior e algum quilômetro de estrada. Mas não sei compartilhar tudo, abrir meu coração. Nem acho que isso tenha importância. O lance é que eu gosto de escrever. Desse jeito mesmo. Sem público, sem objetivo claro. Gosto de dar minha opinião. Eu mais perco que acho alguma coisa. Mas, como diz Caetano: como é bom poder tocar um instrumento.
Quero dizer que não escrevo (posto, do inglês aportuguesado, postar, como se diz agora) aqui todo dia, ou com alguma regularidade, por que nunca foi essa a proposta. É pra quando tem algo pra dizer. Senão transcrevo alguma coisa legal que esteja lendo. Não é bem um diário. Tem elementos cotidianos, mais ou menos banais. Tem reflexões mais profundas. Tem reclamação barata. Tem chute estiloso. É uma salada. Eu gosto de ler o meu blog. Eu me orgulho dele. Deve ter um ou outro que leia. Mas não sou popular. Não trago uma mensagem positiva. Não tenho uma vida glamourosa. Não viajo. Não conheço ninguém famoso. Tenho lá uma vida interior e algum quilômetro de estrada. Mas não sei compartilhar tudo, abrir meu coração. Nem acho que isso tenha importância. O lance é que eu gosto de escrever. Desse jeito mesmo. Sem público, sem objetivo claro. Gosto de dar minha opinião. Eu mais perco que acho alguma coisa. Mas, como diz Caetano: como é bom poder tocar um instrumento.
Disse o profeta, do mesmo Desastronauta:
Os homens práticos possuem todas as mulheres do mundo. Quanto a mim, nada entendo de mulheres e física nuclear. Mulher eu não entendo, eu abraço. Há o risco de nós, os pequenos sonhadores, ficarmos substituindo o contato direto por um prolongamento do lirismo - a mulher mais linda pode virar poema, mas acaba não indo pra cama com você. Ela gosta de estar com você, a conversa é agradável (pra ela), você é o bom, o confidente, mas quem vai dormir com ela são os outros, pois você a compreende demais para tanto, e fica a ver navios. Não que eu seja contra a amizade entre o homem e a mulher, mas essa bondade, no caso, é execrável.
Os homens práticos possuem todas as mulheres do mundo. Quanto a mim, nada entendo de mulheres e física nuclear. Mulher eu não entendo, eu abraço. Há o risco de nós, os pequenos sonhadores, ficarmos substituindo o contato direto por um prolongamento do lirismo - a mulher mais linda pode virar poema, mas acaba não indo pra cama com você. Ela gosta de estar com você, a conversa é agradável (pra ela), você é o bom, o confidente, mas quem vai dormir com ela são os outros, pois você a compreende demais para tanto, e fica a ver navios. Não que eu seja contra a amizade entre o homem e a mulher, mas essa bondade, no caso, é execrável.
o desastronauta
Disse o profeta: mais uma leitura compartilhada. Do Flávio Moreira da Costa, o Desastronauta, publicado pela Agir em 2006.
- de vez em quando dou por mim murmurando quase em voz alta "existe gente demais no mundo", isso ocorre quando estou em ruas muito movimentadas, em aglomerações - as pessoas nada significam umas pras outras, a não ser depois da longa trajetória que leva à amizade ou ao amor, enquanto isso você é apenas um vulto que passa, se você quer ter a sensação de se sentir como uma formiga, uma poeira, vá a Nova York, lá eu vi um homem chorando, gritando na estação do metrô, para que chamassem a polícia porque ele queria ser preso, tanta era a miséria, a solidão, a fome e o isolamento - os jornais chamam isso de "o drama da cidade grande", a verdade é que você é um zero, entendeu, ou melhor, apenas um/quatro milhões de avos, nada mais que isso, aceite pois, essa verdade, pequeno-burguês, operário, poeta, professorzinho, engenheiro, marginal, a não ser que você possua uma excelente conta bancária, e com o dinheiro anule muitos avos e aumente a sua importância, compre situação, prestígio, durma com mais mulheres bonitas (pois o sex-appeal está no livrinho de cheques), passe a ser conceituado "senhor Fulano de Tal", seu nome aparece em determinadas colunas de jornais, freqüenta festas black-tie, conhece simpáticas raposas políticas, convida-as para jantar e acaba - afinal de contas a sua esposa é atraente - você mesmo um político, se você é bacharel em ciências jurídicas e sociais isso ajuda, pois com o anel mágico no dedo seu handicap aumenta, e pode mesmo acabar deputado federal ou quem sabe governador (questão de cuidar das amizades) - mas isso tudo é excessão, a regra é: apenas um dado estatístico, e convém se conformar com isso - conforme-se senhor um-quatro milhão de avos! - escravidão, onde estás que não te abolem?! - mas no fundo da sua neurose acha que é até bom ser anônimo, que tem lá suas vantagens, você sabe que a humanidade se divide entre os de cima e os de baixo - e neste século surgiu em massa um estado fluídico intermediário (a classe média, mérdia, mérdia), o mais triste pois, vindo de baixo, contempla, adula, deseja o status de cima, e se chega a atingi-lo passa a ser pior que os outros, a lírica humanidade-civilização-sifilização se compõe de mau-caráteres e imbecis - você percebe onde deve se localizar - e, de repente você percebe que o mito de Sísifo não é mito coisa nenhuma, mas a pura, dura realidade: estamos sempre carregando uma pedra ladeira acima que teima em rolar novamente para baixo e recomeçamos a empurrá-la para acima e assim para sempre, amém - ai dos que não recomeçam! - e as pessoas enlouquecem quando resolvem se questionar sobre essa ação, essa força, e cada um arruma um nome-desculpa, Deus, ou isso e aquilo - literatura, literaturra, literatice - , a verdade é que o mundo caminha para o socialismo ou para o abismo, talvez para o abismo(...)
- de vez em quando dou por mim murmurando quase em voz alta "existe gente demais no mundo", isso ocorre quando estou em ruas muito movimentadas, em aglomerações - as pessoas nada significam umas pras outras, a não ser depois da longa trajetória que leva à amizade ou ao amor, enquanto isso você é apenas um vulto que passa, se você quer ter a sensação de se sentir como uma formiga, uma poeira, vá a Nova York, lá eu vi um homem chorando, gritando na estação do metrô, para que chamassem a polícia porque ele queria ser preso, tanta era a miséria, a solidão, a fome e o isolamento - os jornais chamam isso de "o drama da cidade grande", a verdade é que você é um zero, entendeu, ou melhor, apenas um/quatro milhões de avos, nada mais que isso, aceite pois, essa verdade, pequeno-burguês, operário, poeta, professorzinho, engenheiro, marginal, a não ser que você possua uma excelente conta bancária, e com o dinheiro anule muitos avos e aumente a sua importância, compre situação, prestígio, durma com mais mulheres bonitas (pois o sex-appeal está no livrinho de cheques), passe a ser conceituado "senhor Fulano de Tal", seu nome aparece em determinadas colunas de jornais, freqüenta festas black-tie, conhece simpáticas raposas políticas, convida-as para jantar e acaba - afinal de contas a sua esposa é atraente - você mesmo um político, se você é bacharel em ciências jurídicas e sociais isso ajuda, pois com o anel mágico no dedo seu handicap aumenta, e pode mesmo acabar deputado federal ou quem sabe governador (questão de cuidar das amizades) - mas isso tudo é excessão, a regra é: apenas um dado estatístico, e convém se conformar com isso - conforme-se senhor um-quatro milhão de avos! - escravidão, onde estás que não te abolem?! - mas no fundo da sua neurose acha que é até bom ser anônimo, que tem lá suas vantagens, você sabe que a humanidade se divide entre os de cima e os de baixo - e neste século surgiu em massa um estado fluídico intermediário (a classe média, mérdia, mérdia), o mais triste pois, vindo de baixo, contempla, adula, deseja o status de cima, e se chega a atingi-lo passa a ser pior que os outros, a lírica humanidade-civilização-sifilização se compõe de mau-caráteres e imbecis - você percebe onde deve se localizar - e, de repente você percebe que o mito de Sísifo não é mito coisa nenhuma, mas a pura, dura realidade: estamos sempre carregando uma pedra ladeira acima que teima em rolar novamente para baixo e recomeçamos a empurrá-la para acima e assim para sempre, amém - ai dos que não recomeçam! - e as pessoas enlouquecem quando resolvem se questionar sobre essa ação, essa força, e cada um arruma um nome-desculpa, Deus, ou isso e aquilo - literatura, literaturra, literatice - , a verdade é que o mundo caminha para o socialismo ou para o abismo, talvez para o abismo(...)
Paulo Freire falando de Chico Buarque (do livro Sem tesão não há solução)
Você vê por exemplo, um cara como o Chico Buarque. O que é que ele tem de diferente de nós? É que ele é um grande sortudo. Ele pegou cedo o maior potencial dele, que era fazer samba e poesia. Ele ia ser arquiteto. A família projetava nele todo o potencial de um arquiteto. Família de classe média alta, de intelectuais, o pai professor. E o Chico deve ter dito não: "o que eu quero é fazer samba e tomar cerveja". Isso tinha toda uma aparência de vagabundagem e de marginalidade, mas por trás disso estava tudo aquilo que aparece nas letras e músicas dos seus sambas, de sua vida e de seu lazer com cerveja e tudo. Essa atitude humana do Chico perante a sociedade, é basicamente uma atitude política. Mas uma política visceral, não inventada ou estudada. E ele teve de, no começo, aceitar ser um marginal até dentro da própria família, e só depois, tornando em obras e atitudes a sua originalidade livre é que foi conquistando o respeito que merece hoje. O Chico sempre foi e é até hoje uma pessoa profundamente incômoda ao sistema, porque é um vitorioso dentro do próprio sistema que ele combate. Mas ele venceu porque só usou o samba e a poesia, a coerência política e a cerveja, a agressividade e a beleza, o amor e a crítica, bem como as coisas populares brasileiras como arma pra defender sua originalidade única. Eram as coisas dele.
Disse o profeta:
Do livro "O Ninho da Serpente" do Pedro Juan Gutiérrez, Companhia das Letras
- Está comprovado cientificamente. As mulheres amadurecem antes de nós e são mais espertas. Além disso são muito pragmáticas e não amam. Se apaixonam um pouquinho. O único truque para controlar as mulheres é inventar um mistério, para elas ficarem ocupadas com a investigação. Quem é esse sujeito? De onde ele saiu? O que quer comigo? E por aí vai. Elas que se perguntem muitas coisas. A mulher é curiosa por natureza. E se além disso você come ela, pronto, está feito. Você é o ídolo preferido.
-E depois? Quando o tempo passa?
-Ah, você se fode. Ela já tem todas as respostas para o mistério e sabe que você é só mais um homenzinho. Comum e normal. Cheio de problemas e defeitos. O encanto se rompe.
(página 74)
A crise explodiu uns anos depois, quando eu já tinha vinte ou vinte um anos: depressivo, suicida, furioso, louco, lascivo-sádico, bêbado, agressivo. Tudo ao mesmo tempo. Autodestrutivo. Claro.. A serpente estava incubando desde a adolescência. A relação amor-e-ódio a respeito do resto da manada. Quando por fim entendi isso, comecei a me distanciar. Anti-social? Não creio. Associal. Quanto mais silêncio e solidão há ao meu redor, melhor me sinto.
(pág. 77)
Eu queria conjurar o demônio e escrever sobre tudo o que as pessoas escondem. Todos querem ser agradáveis, cultos e precavidamente sensatos. Isso não me interessava. De forma que a primeira providência era me afastar desse tipo de gente. O aprendizado seria solitário. Eu não tinha de perguntar nada. O escritor perfeito é um fantasma invisível. Ninguém pode vê-lo, mas ele escuta e vê tudo. O que há de mais íntimo e secreto em cada pessoa. Atravessa paredes e se enfia no cérebro e na alma dos outros. E depois escreve sem medo. Tem de arriscar. Quem não se atreve a chegar ao limite não tem direito de escrever. É preciso empurrar todos os personagens até o limite. É preciso aprender a fazê-lo. Mas ninguém pode ensinar como se faz isso.
(pág. 80-81)
Eu não queria trabalhar em construção. Queria fazer outra coisa. O quê? Não sabia. Tanto tempo no exército me deixou confuso. Não suportava nada que significasse autoridade. Entrei numa fase de rebelião paranóica. Às vezes, penso que estive à beira da esquizofrenia. Deixei o cabelo comprido e sujo. Não tomava banho, não fazia a barba, não cortava nem limpava as unhas. Também não usava cueca. Resolvi não trocar, nem lavar nunca o jeans. Quase não comia porque não me interessava me alimentar. Bebia e fumava muito. Não escovava os dentes e gostava do mau cheiro dos pés, de ter hálito forte, com cheiro de álcool, tabaco e cebola. Para foder com quem chegasse perto de mim. Queria ser uma jaritataca, um hiena asquerosa. Queria feder e que todos me dessem as costas. Queria falar só com o diabo. Que o diabo me aparecesse para eu discutir com ele e que gritasse para mim:
-Quem porra você pensa que é? O diabo sou eu, imbecil! Está tomando o meu lugar e vou desintregrar você.
(pág. 214)
Do livro "O Ninho da Serpente" do Pedro Juan Gutiérrez, Companhia das Letras
- Está comprovado cientificamente. As mulheres amadurecem antes de nós e são mais espertas. Além disso são muito pragmáticas e não amam. Se apaixonam um pouquinho. O único truque para controlar as mulheres é inventar um mistério, para elas ficarem ocupadas com a investigação. Quem é esse sujeito? De onde ele saiu? O que quer comigo? E por aí vai. Elas que se perguntem muitas coisas. A mulher é curiosa por natureza. E se além disso você come ela, pronto, está feito. Você é o ídolo preferido.
-E depois? Quando o tempo passa?
-Ah, você se fode. Ela já tem todas as respostas para o mistério e sabe que você é só mais um homenzinho. Comum e normal. Cheio de problemas e defeitos. O encanto se rompe.
(página 74)
A crise explodiu uns anos depois, quando eu já tinha vinte ou vinte um anos: depressivo, suicida, furioso, louco, lascivo-sádico, bêbado, agressivo. Tudo ao mesmo tempo. Autodestrutivo. Claro.. A serpente estava incubando desde a adolescência. A relação amor-e-ódio a respeito do resto da manada. Quando por fim entendi isso, comecei a me distanciar. Anti-social? Não creio. Associal. Quanto mais silêncio e solidão há ao meu redor, melhor me sinto.
(pág. 77)
Eu queria conjurar o demônio e escrever sobre tudo o que as pessoas escondem. Todos querem ser agradáveis, cultos e precavidamente sensatos. Isso não me interessava. De forma que a primeira providência era me afastar desse tipo de gente. O aprendizado seria solitário. Eu não tinha de perguntar nada. O escritor perfeito é um fantasma invisível. Ninguém pode vê-lo, mas ele escuta e vê tudo. O que há de mais íntimo e secreto em cada pessoa. Atravessa paredes e se enfia no cérebro e na alma dos outros. E depois escreve sem medo. Tem de arriscar. Quem não se atreve a chegar ao limite não tem direito de escrever. É preciso empurrar todos os personagens até o limite. É preciso aprender a fazê-lo. Mas ninguém pode ensinar como se faz isso.
(pág. 80-81)
Eu não queria trabalhar em construção. Queria fazer outra coisa. O quê? Não sabia. Tanto tempo no exército me deixou confuso. Não suportava nada que significasse autoridade. Entrei numa fase de rebelião paranóica. Às vezes, penso que estive à beira da esquizofrenia. Deixei o cabelo comprido e sujo. Não tomava banho, não fazia a barba, não cortava nem limpava as unhas. Também não usava cueca. Resolvi não trocar, nem lavar nunca o jeans. Quase não comia porque não me interessava me alimentar. Bebia e fumava muito. Não escovava os dentes e gostava do mau cheiro dos pés, de ter hálito forte, com cheiro de álcool, tabaco e cebola. Para foder com quem chegasse perto de mim. Queria ser uma jaritataca, um hiena asquerosa. Queria feder e que todos me dessem as costas. Queria falar só com o diabo. Que o diabo me aparecesse para eu discutir com ele e que gritasse para mim:
-Quem porra você pensa que é? O diabo sou eu, imbecil! Está tomando o meu lugar e vou desintregrar você.
(pág. 214)
Disse o profeta:
Florianópolis. Praia da Armação. 1965.
A família de Nelson chega alegre para mais um sábado na beira do mar. Saíram da Costeira, apetrechos em mãos: toalhas, roupas e chapéus. Além da mãe e dos irmãos, vizinhas e namoradas. Todos ao ponto de ônibus. Tudo transcorre bem. Uma hora e meia depois, uma passada na vendola, já na praia. Cachaça e bolacha. Agora é ir na casa do Sapiroca, pescador local que oferece uma modesta estrutura: almoço (arroz, feijão, peixe frito, salada de tomate e alface) e um limoeiro do lado de casa, de onde saem os frutos pra fazer a caipirinha. Comida encomendada, bebidas a postos, todos ao mar.
Floripa era outra, o mundo era outro.
Seria mais um fim de semana com a família, que Nelson, aí com seus 20 e tantos anos, aproveitaria. Não fosse a presença de Kátia, bela morena, por quem ele arrastava uma asa fazia tempo.
E naquele sábado, ele tinha posto na cabeça que ia convencê-la a ficar mais a vontade. Passou o dia, veio o fim de tarde, só os dois na praia, quando ela finalmente concordou em tirar a parte de cima do maiô. Aquele por-do-sol lindo, naquela praia ainda pouco habitada, ficaram marcados pra sempre na retina e no coração do Nelson. Tanto que me contou, 40 anos depois, com um brilho no olhar.
----------------------
Aí é que mora o perigo. Eis a situação que se coloca. Justamente nisso, a capacidade de passar o clima. Escolhi escrever de um jeito direto, enxuto e ficou coisa demais pra trás. Precisava dizer como era difícil namorar naqueles dias. Havia muito mais pudor, limites impostos pela moral vigente. Mulher tinha que casar virgem e pura. Eu ainda peguei o finalzinho desse sistema. Hoje está tudo completamente diferente. Então dá pra imaginar a felicidade do Nelson, quando deu certo. A moça topou se mostrar pra ele. Outra coisa que eu queria falar era da cidade. Florianópolis, ainda uma pequena vila e dentro dela uma praia, ainda quase virgem. Habitada somente pelos pescadores e suas famílias. Sem turistas, especulação imobiliária, filas de carros, gente, gente, gente. Tanto que o casal pode curtir um fim de tarde isolado na praia. Hoje seria impossível em quase nenhuma praia da ilha, ainda mais a Armação, super disputada.
Então foi isso, tive que explicar a piada. Perdeu a graça. Coisa de quem não conta muito bem. Fazer o que? Vamos nos agüentando.
Florianópolis. Praia da Armação. 1965.
A família de Nelson chega alegre para mais um sábado na beira do mar. Saíram da Costeira, apetrechos em mãos: toalhas, roupas e chapéus. Além da mãe e dos irmãos, vizinhas e namoradas. Todos ao ponto de ônibus. Tudo transcorre bem. Uma hora e meia depois, uma passada na vendola, já na praia. Cachaça e bolacha. Agora é ir na casa do Sapiroca, pescador local que oferece uma modesta estrutura: almoço (arroz, feijão, peixe frito, salada de tomate e alface) e um limoeiro do lado de casa, de onde saem os frutos pra fazer a caipirinha. Comida encomendada, bebidas a postos, todos ao mar.
Floripa era outra, o mundo era outro.
Seria mais um fim de semana com a família, que Nelson, aí com seus 20 e tantos anos, aproveitaria. Não fosse a presença de Kátia, bela morena, por quem ele arrastava uma asa fazia tempo.
E naquele sábado, ele tinha posto na cabeça que ia convencê-la a ficar mais a vontade. Passou o dia, veio o fim de tarde, só os dois na praia, quando ela finalmente concordou em tirar a parte de cima do maiô. Aquele por-do-sol lindo, naquela praia ainda pouco habitada, ficaram marcados pra sempre na retina e no coração do Nelson. Tanto que me contou, 40 anos depois, com um brilho no olhar.
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Aí é que mora o perigo. Eis a situação que se coloca. Justamente nisso, a capacidade de passar o clima. Escolhi escrever de um jeito direto, enxuto e ficou coisa demais pra trás. Precisava dizer como era difícil namorar naqueles dias. Havia muito mais pudor, limites impostos pela moral vigente. Mulher tinha que casar virgem e pura. Eu ainda peguei o finalzinho desse sistema. Hoje está tudo completamente diferente. Então dá pra imaginar a felicidade do Nelson, quando deu certo. A moça topou se mostrar pra ele. Outra coisa que eu queria falar era da cidade. Florianópolis, ainda uma pequena vila e dentro dela uma praia, ainda quase virgem. Habitada somente pelos pescadores e suas famílias. Sem turistas, especulação imobiliária, filas de carros, gente, gente, gente. Tanto que o casal pode curtir um fim de tarde isolado na praia. Hoje seria impossível em quase nenhuma praia da ilha, ainda mais a Armação, super disputada.
Então foi isso, tive que explicar a piada. Perdeu a graça. Coisa de quem não conta muito bem. Fazer o que? Vamos nos agüentando.
Disse o profeta:
Mega empolgadaço com um som novo que descobri no mercado de pulgas( http://mercadodepulgas.blogspot.com/). Chama-se Dona Zica. Música brasileira de primeira. Uma mistura de Tom Zé, Grupo Rumo e Karnak. Com um toque nordestino nos arranjos, a música caminha por trilhas novas, com jeitão de Arrigo, aquele povo ali, meio alternativão. A poesia é também nova, um gosto inusitado no uso das palavras. Recomendadíssimo, pra baixar já: http://d.turboupload.com/d/860168/2003donazica-composicao.rar.html
Mega empolgadaço com um som novo que descobri no mercado de pulgas( http://mercadodepulgas.blogspot.com/). Chama-se Dona Zica. Música brasileira de primeira. Uma mistura de Tom Zé, Grupo Rumo e Karnak. Com um toque nordestino nos arranjos, a música caminha por trilhas novas, com jeitão de Arrigo, aquele povo ali, meio alternativão. A poesia é também nova, um gosto inusitado no uso das palavras. Recomendadíssimo, pra baixar já: http://d.turboupload.com/d/860168/2003donazica-composicao.rar.html
Disse o profeta:
Eu gosto de escrever, mas não sei contar história direito. Talvez algumas que eu tenha vivido, alguns poemas reclamando da saudade ou saudando as doçuras da vida a dois. Mas vejo como é bonito saber contar histórias. Descrever os personagens e os ambientes. O que a gente sentiu quando participou ou ficou sabendo das aventuras. É claro que são muitas.
Minha última foi num buteco, onde estavam passando uns curta-metragens, animações e video clipes. Um povo descolado presente, umas meninas bonitas. Encontrei alguns amigos de outras datas e dentre eles a namorada do Francisco, a Samira. Magra, morena, longos cabelos negros e um olhar penetrante. Eu sabia que ela falava o grego, acho que até ensinava. Já achava espetacular uma pessoa que se dispusesse a estudar essa língua, ao mesmo tempo rara e parte da base da nossa língua portuguesa, junto com o latim.
Acontece que eu ando aí com um projeto de estudar o mandarim e contei isso pra Samira. Ela tentou me explicar a dificuldade de estudar o sistema utilizado na china, que não usa letras ou fonemas, mas ideogramas. Contou que o símbolo que forma a palavra que traduzimos como vazio, é feita dos ideogramas incêndio e floresta.
Por aí comecei a imaginar o tamanho do desafio que estou me propondo. Mergulhar numa cultura que é praticamente de outro planeta, alienígena.
Também fiquei feliz por conviver com figuras como a Samira e o Francisco, gente que tem o que dizer e compartilha com alegria e simplicidade.
Taí uma historinha. Se me der vontade e coragem conto outras.
Eu gosto de escrever, mas não sei contar história direito. Talvez algumas que eu tenha vivido, alguns poemas reclamando da saudade ou saudando as doçuras da vida a dois. Mas vejo como é bonito saber contar histórias. Descrever os personagens e os ambientes. O que a gente sentiu quando participou ou ficou sabendo das aventuras. É claro que são muitas.
Minha última foi num buteco, onde estavam passando uns curta-metragens, animações e video clipes. Um povo descolado presente, umas meninas bonitas. Encontrei alguns amigos de outras datas e dentre eles a namorada do Francisco, a Samira. Magra, morena, longos cabelos negros e um olhar penetrante. Eu sabia que ela falava o grego, acho que até ensinava. Já achava espetacular uma pessoa que se dispusesse a estudar essa língua, ao mesmo tempo rara e parte da base da nossa língua portuguesa, junto com o latim.
Acontece que eu ando aí com um projeto de estudar o mandarim e contei isso pra Samira. Ela tentou me explicar a dificuldade de estudar o sistema utilizado na china, que não usa letras ou fonemas, mas ideogramas. Contou que o símbolo que forma a palavra que traduzimos como vazio, é feita dos ideogramas incêndio e floresta.
Por aí comecei a imaginar o tamanho do desafio que estou me propondo. Mergulhar numa cultura que é praticamente de outro planeta, alienígena.
Também fiquei feliz por conviver com figuras como a Samira e o Francisco, gente que tem o que dizer e compartilha com alegria e simplicidade.
Taí uma historinha. Se me der vontade e coragem conto outras.
Disse o profeta:
Dia desses li em algum lugar que é preciso alimentar as ilusões, na vida. Que a velhice chega quando não se as tem mais.
Eu sempre alimentei a ilusão de escrever. E abraçado nela, venho suportando os altos e baixos da vida. Claro que também adoro ler. Mas ser um ávido leitor, não faz um bom escritor. É preciso mais: solidão, paciência pra encontrar aquela parte da gente que tenha algo a dizer.
Algo que seja tão imperioso que se torne uma via de acesso do autor à vida, sua e dos outros.
Registrar com algum estilo, não um amontoado de clichês que se sobrepõem. Afinal a arte está aí justamente pra isso, pra libertar o ser humano desta sucessão de martírios: físicos, emocionais, sociais e metafísicos. Nesse momento em que escrevo, possua a capacidade de dirigir minha imaginação para onde quiser. Claro que essa liberdade fica atrelada a uma série de pequenos nós, senão: o estilo em si, quais palavras escolher para dar vida ao pensamento, como não parecer pedante ou óbvio, como ser original, criativo e ao mesmo tempo simples; imaginar quem possa ler e através disso deixar o texto ser atraente, não chocar demais nem ser moralista, considerando que esse material, pelo simples ato de ser publicado, carrega alguns elementos de posteridade, pelos quais passo a ser julgado no futuro (sem exagero de imaginar-me um gênio da raça) e sabendo da extrema pulverização que veículos como a internet proporcionam, é possível imaginar que algumas pessoas possam ler estas palavras. O que levarão delas para suas vidas? Esse colocar-me no lugar do leitor é um limitante da liberdade criativa. Não deixa de ser também um deles, a vaidade do autor, que pretende alguma verdade e beleza em sua obra. Em sua busca por esses ideiais, pode eliminar elementos que, de outra forma, estariam ali presentes. Aí cabe um adendo. Eu acho que o papel da arte não é só a busca da harmonia, embora num primeiro momento seja isso que busquemos nela. Muitas vezes ela pode querer: chocar, alertar, conscientizar, através também do estranhamento, do medo e da feiúra.
Enfim, o sempre mesmo desafio de transcender e expressar. Que nos carrega vida afora na produção artística. Da renovação em termos de esperança, ou ilusão, como referíamos acima. Toda vez que me permito pegar o papel e a caneta, ou o computador e deitar ali as benditas, ou malditas, palavrinhas. Mais do que um privilégio ou uma alegria, este exercício é uma necessidade.
Neste sentido eu tenho orgulho de ser um escritor, mesmo que nunca publicado tradicionalmente. Ainda que não esteja claro o tipo de repercussão que este espaço na internet venha a representar. Eu, como milhares, milhões de outros, aqui vamos contruindo este espaço pra exprimir nossos desejos, nossa arte e alimentando nossas ilusões.
Dia desses li em algum lugar que é preciso alimentar as ilusões, na vida. Que a velhice chega quando não se as tem mais.
Eu sempre alimentei a ilusão de escrever. E abraçado nela, venho suportando os altos e baixos da vida. Claro que também adoro ler. Mas ser um ávido leitor, não faz um bom escritor. É preciso mais: solidão, paciência pra encontrar aquela parte da gente que tenha algo a dizer.
Algo que seja tão imperioso que se torne uma via de acesso do autor à vida, sua e dos outros.
Registrar com algum estilo, não um amontoado de clichês que se sobrepõem. Afinal a arte está aí justamente pra isso, pra libertar o ser humano desta sucessão de martírios: físicos, emocionais, sociais e metafísicos. Nesse momento em que escrevo, possua a capacidade de dirigir minha imaginação para onde quiser. Claro que essa liberdade fica atrelada a uma série de pequenos nós, senão: o estilo em si, quais palavras escolher para dar vida ao pensamento, como não parecer pedante ou óbvio, como ser original, criativo e ao mesmo tempo simples; imaginar quem possa ler e através disso deixar o texto ser atraente, não chocar demais nem ser moralista, considerando que esse material, pelo simples ato de ser publicado, carrega alguns elementos de posteridade, pelos quais passo a ser julgado no futuro (sem exagero de imaginar-me um gênio da raça) e sabendo da extrema pulverização que veículos como a internet proporcionam, é possível imaginar que algumas pessoas possam ler estas palavras. O que levarão delas para suas vidas? Esse colocar-me no lugar do leitor é um limitante da liberdade criativa. Não deixa de ser também um deles, a vaidade do autor, que pretende alguma verdade e beleza em sua obra. Em sua busca por esses ideiais, pode eliminar elementos que, de outra forma, estariam ali presentes. Aí cabe um adendo. Eu acho que o papel da arte não é só a busca da harmonia, embora num primeiro momento seja isso que busquemos nela. Muitas vezes ela pode querer: chocar, alertar, conscientizar, através também do estranhamento, do medo e da feiúra.
Enfim, o sempre mesmo desafio de transcender e expressar. Que nos carrega vida afora na produção artística. Da renovação em termos de esperança, ou ilusão, como referíamos acima. Toda vez que me permito pegar o papel e a caneta, ou o computador e deitar ali as benditas, ou malditas, palavrinhas. Mais do que um privilégio ou uma alegria, este exercício é uma necessidade.
Neste sentido eu tenho orgulho de ser um escritor, mesmo que nunca publicado tradicionalmente. Ainda que não esteja claro o tipo de repercussão que este espaço na internet venha a representar. Eu, como milhares, milhões de outros, aqui vamos contruindo este espaço pra exprimir nossos desejos, nossa arte e alimentando nossas ilusões.
Disse o profeta:
Do livro, O Insaciável Homem Aranha (Ed. Companhia das Letras, SP, 2004)
- O senhor conhece a bíblia?
-Conheço, gosto muito dos evangelhos.
-Ah, então o Senhor...
-Olhe, meu amor, os evangelhos são uns romances esplêndidos, mas não gosto de padres, nem de igrejas, nem de missas, nem dos ritos e das obras de teatro que montam. Nem de religião, nem de política. Por princípio, recuso tudo que constitua um eixo de poder.
-Um eixo de poder?
-É.
-Ehhh...
-Não sabe o que é um eixo de poder? É a partir de um eixo de poder que manipulam você.
(pág. 84)
Fazia um calor sufocante e me entretive olhando pela janela os vizinhos dos andares inferiores. Me pergunto se todas as vidas são tão vertiginosas e caóticas como a minha. Será que todos vivem tão desesperadamente? É insuportável. Às vezes penso que já está tudo feito. E não tem volta. Quando a gente escreve até transformar a escrita em vício, a única coisa que se faz é explorar. E para encontrar alguma coisa é preciso ir até o fundo. O pior é que, uma vez no fundo, é impossível regressar até a superfície. Não se pode sair jamais.
(pág. 87)
A gorda se foi. Fiquei sozinho com os cachorros e a novelona de Eduardo e sua mãe. Eu estava passando por um período de intolerância total. E isso é terrível. Tinha de controlar o desejo de começar a chutar os cachorros até matar. E de espatifar o rádio no chão. Essas etapas são muito dolorosas. Às vezes consigo abrandá-las um pouquinho e entro em fases de serenidade. Então as pessoas acham que sou um sujeito nobre e generoso desde nascença.
(pág. 91)
Do livro, O Insaciável Homem Aranha (Ed. Companhia das Letras, SP, 2004)
- O senhor conhece a bíblia?
-Conheço, gosto muito dos evangelhos.
-Ah, então o Senhor...
-Olhe, meu amor, os evangelhos são uns romances esplêndidos, mas não gosto de padres, nem de igrejas, nem de missas, nem dos ritos e das obras de teatro que montam. Nem de religião, nem de política. Por princípio, recuso tudo que constitua um eixo de poder.
-Um eixo de poder?
-É.
-Ehhh...
-Não sabe o que é um eixo de poder? É a partir de um eixo de poder que manipulam você.
(pág. 84)
Fazia um calor sufocante e me entretive olhando pela janela os vizinhos dos andares inferiores. Me pergunto se todas as vidas são tão vertiginosas e caóticas como a minha. Será que todos vivem tão desesperadamente? É insuportável. Às vezes penso que já está tudo feito. E não tem volta. Quando a gente escreve até transformar a escrita em vício, a única coisa que se faz é explorar. E para encontrar alguma coisa é preciso ir até o fundo. O pior é que, uma vez no fundo, é impossível regressar até a superfície. Não se pode sair jamais.
(pág. 87)
A gorda se foi. Fiquei sozinho com os cachorros e a novelona de Eduardo e sua mãe. Eu estava passando por um período de intolerância total. E isso é terrível. Tinha de controlar o desejo de começar a chutar os cachorros até matar. E de espatifar o rádio no chão. Essas etapas são muito dolorosas. Às vezes consigo abrandá-las um pouquinho e entro em fases de serenidade. Então as pessoas acham que sou um sujeito nobre e generoso desde nascença.
(pág. 91)
Disse o profeta: tem aqui um texto do Mário Bortolloto que é muito bom. (http://atirenodramaturgo.zip.net/arch2004-11-14_2004-11-20.html)
Tava lendo hoje na Playboy que as mulheres agora estão cada dia mais interessadas em sexo casual. Ou seja, elas querem mais é trepar e sair fora, não deixar telefone, não marcar segundo encontro e nem deixar qualquer pista de sua gloriosa existencia. Os homens sempre gostaram de agir dessa maneira e agora elas estão indo à forra, segundo suas próprias palavras. Elas querem mais é usar e sair fora. E assim como os homens, na hora da "caça" (que expressão "bonita", hein?) elas também são atraídas únicamente pelo físico. Quer dizer, os caras visam as gostosas. E elas, por sua vez, gostam de caras com abdomem definido e bonitinhos. E não querem saber do cara falando muito. E ainda segundo a Playboy, sujeitos com barriga de cerveja, cabelo desgrenhado e calças velhas tem chances infímas com essas "novas" mulheres. Então isso quer dizer, que se eu não fosse casado, me transformaria no maior punheteiro do planeta, sim, porque não há qualquer possibilidade, por mais remota que seja, de eu parar de tomar cerveja, passar a pentear os cabelos ou comprar calças novas. Dia desses eu conversei com um cara. Quer dizer, tentei entabular com ele uma conversa mínima que não exigisse muito de seu deficitário Q.I. O tipo de cara que fica horas diáriamente se matando em uma academia, depois vai ao salão de cabelereiro e só anda na estica. Aí eu perguntei pra ele: "Cara, você gosta mesmo disso?" O cara respondeu: "O que?" Eu disse: "Essa merda toda. O tempo que você passa na Academia se matando ouvindo essa FM insuportável, frequentar uma merda de um salão de cabelereiro e essas boutiques nojentas...ah, você sabe, a merda toda." O cara respondeu: "Olha, eu gostaria de não ter que fazer tudo isso. É muito empenho. Mas vale o sacrifício." Eu já tava meio que passando mal. Falei : "É mesmo, é? E porque?" O cara respondeu sem nenhum constrangimento. Eu diria até que ele falou com o mó orgulho: "As mulheres adoram. Elas pagam o mó pau pra minha aparencia." Puta, cara. Vai tomar no cu. Há certas coisas que eu simplesmente não consigo entender. E convenhamos, se é preciso tanto sacrifício para comer umas vacas desse naipe (que se sentem bem por parecerem com os homens justamente no que eles tem de mais escroto), eu devo admitir que ficaria muito feliz em total estado de abstinência admirando uma foto de Lauren Bacall na parede. Tá tudo certo. E por companhia uma atraente caixa de latinhas de cerveja. Ah, vão se foder.
Tava lendo hoje na Playboy que as mulheres agora estão cada dia mais interessadas em sexo casual. Ou seja, elas querem mais é trepar e sair fora, não deixar telefone, não marcar segundo encontro e nem deixar qualquer pista de sua gloriosa existencia. Os homens sempre gostaram de agir dessa maneira e agora elas estão indo à forra, segundo suas próprias palavras. Elas querem mais é usar e sair fora. E assim como os homens, na hora da "caça" (que expressão "bonita", hein?) elas também são atraídas únicamente pelo físico. Quer dizer, os caras visam as gostosas. E elas, por sua vez, gostam de caras com abdomem definido e bonitinhos. E não querem saber do cara falando muito. E ainda segundo a Playboy, sujeitos com barriga de cerveja, cabelo desgrenhado e calças velhas tem chances infímas com essas "novas" mulheres. Então isso quer dizer, que se eu não fosse casado, me transformaria no maior punheteiro do planeta, sim, porque não há qualquer possibilidade, por mais remota que seja, de eu parar de tomar cerveja, passar a pentear os cabelos ou comprar calças novas. Dia desses eu conversei com um cara. Quer dizer, tentei entabular com ele uma conversa mínima que não exigisse muito de seu deficitário Q.I. O tipo de cara que fica horas diáriamente se matando em uma academia, depois vai ao salão de cabelereiro e só anda na estica. Aí eu perguntei pra ele: "Cara, você gosta mesmo disso?" O cara respondeu: "O que?" Eu disse: "Essa merda toda. O tempo que você passa na Academia se matando ouvindo essa FM insuportável, frequentar uma merda de um salão de cabelereiro e essas boutiques nojentas...ah, você sabe, a merda toda." O cara respondeu: "Olha, eu gostaria de não ter que fazer tudo isso. É muito empenho. Mas vale o sacrifício." Eu já tava meio que passando mal. Falei : "É mesmo, é? E porque?" O cara respondeu sem nenhum constrangimento. Eu diria até que ele falou com o mó orgulho: "As mulheres adoram. Elas pagam o mó pau pra minha aparencia." Puta, cara. Vai tomar no cu. Há certas coisas que eu simplesmente não consigo entender. E convenhamos, se é preciso tanto sacrifício para comer umas vacas desse naipe (que se sentem bem por parecerem com os homens justamente no que eles tem de mais escroto), eu devo admitir que ficaria muito feliz em total estado de abstinência admirando uma foto de Lauren Bacall na parede. Tá tudo certo. E por companhia uma atraente caixa de latinhas de cerveja. Ah, vão se foder.
poesia do mestre
Disse o profeta: traduzi mais um bukowski. Sempre me sinto a trair o mestre, mas vamos lá, coragem.
Ápice da dor
Ouço inclusive como riem,
As montanhas,
Acima e abaixo de suas ladeiras azuis,
E abaixo, na água,
Os peixes choram,
E toda a água
são suas lágrimas,
Ouço a água,
As noites que passo bebendo
E a tristeza se faz tão grande,
Que a ouço no meu relógio,
Se torna botões na cômoda,
Se torna papel no chão,
Se torna calçadeira,
Tíquete de lavanderia,
Se torna fumaça de cigarro
Escalando um templo de obscuras trepadeiras
Pouco importa,
Pouco amor
Ou pouca vida,
Não é tão mau.
O que conta é observar as paredes.
Eu nasci pra isso.
Nasci para roubar rosas nas avenidas da morte.
Ápice da dor
Ouço inclusive como riem,
As montanhas,
Acima e abaixo de suas ladeiras azuis,
E abaixo, na água,
Os peixes choram,
E toda a água
são suas lágrimas,
Ouço a água,
As noites que passo bebendo
E a tristeza se faz tão grande,
Que a ouço no meu relógio,
Se torna botões na cômoda,
Se torna papel no chão,
Se torna calçadeira,
Tíquete de lavanderia,
Se torna fumaça de cigarro
Escalando um templo de obscuras trepadeiras
Pouco importa,
Pouco amor
Ou pouca vida,
Não é tão mau.
O que conta é observar as paredes.
Eu nasci pra isso.
Nasci para roubar rosas nas avenidas da morte.
bóia fria x fisioterapeuta
Disse o profeta: Eu não consigo me acostumar com a idéia de dizer que no mundo sempre houveram senhores e escravos. E que isso não vai mudar nunca . É que eu assisti uma reportagem mostrando um canavial onde os trabalhadores estavam recebendo a atenção de um fisioterapeuta antes de começar mais um dia de labor extenuante e mal remunerado. Logo pensei, o patrão querendo que suas peças durem mais. Nada de melhora de qualidade de vida pra eles. E o pior que eu ainda fico discutindo essas coisas no almoço com meu pai, que é completamente cético quanto a qualquer mudança. Ainda argumentei que no primeiro mundo não tem mais trabalhador tão aviltado, daí tive que ouvir que alguém tem que limpar a latrina e esse alguém é do terceiro mundo. Ora bolas, carambola, quase me estraga o almoço. Mas bravamente engoli mais essa, concluí que era caso perdido levantar esse tema e segui garfando mais um pouco de arroz com feijão.
Disse o profeta: Não me passa pela cabeça que pudesse ser de outra maneira. Eu já ando entregue não é de hoje. Se tudo está como está e já não resta mais nenhuma esperança, senão viver, parece que encontrei algum equilíbrio neste floresta de sentimentos e atos. Também já não espero de ti resposta, por gesto ou palavra. Não deposito mais em ti o grande peso de ser a única e verdadeira saída da solidão. És, como eu, uma simples pessoa atravessando o mar da vida. Tens aí tuas vaidades e outros tropeços, mas nenhum deles significa a impossibilidade de convívio. Mesmo que tenhas traçado uma linha que me afasta dos teus ideais de convívio amoroso, permanecemos em contato e gerando linhas na trama um do outro. E assim serei cada dia menos príncipe. E nossas mãos poderão permanecer unidas ainda um pouco mais.
Nilo Neto abre o coração a Carla
Nilo Neto
uma palavra que resuma a vida:
evolução
uma cor:
azul escuro
uma flor:
jasmim
se foste tatuar algo hj de noite, o que faria:
Carla
familia é:
um nó
da sua adolescencia, o que lembra com alegria:
o primeiro beijo
e com tristeza:
fazer regime
universo é:
infinito
e o que seria, este infinito:
o que não tem começo nem fim, mas evolui
hum
para se estar feliz é necessário:
estar distraído
um dia de festa que lembras:
formatura do I grau, ganhei uma garelli de presente mas não conseguia acreditar, fiquei de boca aberta, literalmente
uhauha
o que acaba com a sua festa:
acabou a cerveja, acabou a amizade
rerererrrere
ahukkhuahkuakhuhkuahku
para cacete, é serio
sério, peraí
se sentir excluído, menosprezado
um arrependimento:
ter saído de perto de ti
amigo é quem:
ultrapassou a barreira dos dias bons e suportou os dias de chuva, resumindo, amizade leva tempo
vc não suporta quem:
gente autoritária e mau humorada
um dia da vida que poderia ter sido diferente:
fizemos uma festa grande aqui em casa pra comemorar a classificação do avaí para a série a, só que o leão conseguiu perder
que é a morte:
o desaparecimento da individualidade
uma viagem especial:
a ida ao Piauí, que foi o lugar mais longe que eu já fui
uma conquista importante:
participar da luta antimanicomial em Brasília
o que ficou no quase:
viajar pros EUA pra conhecer o trabalho do movimento dos usuários de lá
pra finalizar,
um filho é:
sacanagem essa pergunta hein
um filho é o maior sonho de todos
pra realizar esse teria que conquistar muitas outras coisas
uma palavra que resuma a vida:
evolução
uma cor:
azul escuro
uma flor:
jasmim
se foste tatuar algo hj de noite, o que faria:
Carla
familia é:
um nó
da sua adolescencia, o que lembra com alegria:
o primeiro beijo
e com tristeza:
fazer regime
universo é:
infinito
e o que seria, este infinito:
o que não tem começo nem fim, mas evolui
hum
para se estar feliz é necessário:
estar distraído
um dia de festa que lembras:
formatura do I grau, ganhei uma garelli de presente mas não conseguia acreditar, fiquei de boca aberta, literalmente
uhauha
o que acaba com a sua festa:
acabou a cerveja, acabou a amizade
rerererrrere
ahukkhuahkuakhuhkuahku
para cacete, é serio
sério, peraí
se sentir excluído, menosprezado
um arrependimento:
ter saído de perto de ti
amigo é quem:
ultrapassou a barreira dos dias bons e suportou os dias de chuva, resumindo, amizade leva tempo
vc não suporta quem:
gente autoritária e mau humorada
um dia da vida que poderia ter sido diferente:
fizemos uma festa grande aqui em casa pra comemorar a classificação do avaí para a série a, só que o leão conseguiu perder
que é a morte:
o desaparecimento da individualidade
uma viagem especial:
a ida ao Piauí, que foi o lugar mais longe que eu já fui
uma conquista importante:
participar da luta antimanicomial em Brasília
o que ficou no quase:
viajar pros EUA pra conhecer o trabalho do movimento dos usuários de lá
pra finalizar,
um filho é:
sacanagem essa pergunta hein
um filho é o maior sonho de todos
pra realizar esse teria que conquistar muitas outras coisas
Disse o profeta:
Para cada cinco minutos de bom senso razoável, comunhão com o fluxo gregário e sentido da vida mais ou menos dado pelos motores sociais, pelos amores, pela História, pelo trabalho e sobrevivência digna de nota, existem cinco horas de boçalidade catártica, sensações doentias de não ter nada a ver com o mundo, ceticismo ranzinza, carência de afeto patética, demência de massa, incapacidade de comunicação, cozinha dos instintos, lapsos de consciência, tédio gratuito, tristezas de raiva, revolta que vira melancolia apática.
Fausto Fawcett - Básico Instinto, Ed. Relume Dumará, RJ, 1992
Para cada cinco minutos de bom senso razoável, comunhão com o fluxo gregário e sentido da vida mais ou menos dado pelos motores sociais, pelos amores, pela História, pelo trabalho e sobrevivência digna de nota, existem cinco horas de boçalidade catártica, sensações doentias de não ter nada a ver com o mundo, ceticismo ranzinza, carência de afeto patética, demência de massa, incapacidade de comunicação, cozinha dos instintos, lapsos de consciência, tédio gratuito, tristezas de raiva, revolta que vira melancolia apática.
Fausto Fawcett - Básico Instinto, Ed. Relume Dumará, RJ, 1992
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