poesia do mestre

Disse o profeta: traduzi mais um bukowski. Sempre me sinto a trair o mestre, mas vamos lá, coragem.

Ápice da dor

Ouço inclusive como riem,
As montanhas,
Acima e abaixo de suas ladeiras azuis,
E abaixo, na água,
Os peixes choram,
E toda a água
são suas lágrimas,
Ouço a água,
As noites que passo bebendo
E a tristeza se faz tão grande,
Que a ouço no meu relógio,
Se torna botões na cômoda,
Se torna papel no chão,
Se torna calçadeira,
Tíquete de lavanderia,
Se torna fumaça de cigarro
Escalando um templo de obscuras trepadeiras
Pouco importa,
Pouco amor
Ou pouca vida,
Não é tão mau.
O que conta é observar as paredes.
Eu nasci pra isso.
Nasci para roubar rosas nas avenidas da morte.

bóia fria x fisioterapeuta

Disse o profeta: Eu não consigo me acostumar com a idéia de dizer que no mundo sempre houveram senhores e escravos. E que isso não vai mudar nunca . É que eu assisti uma reportagem mostrando um canavial onde os trabalhadores estavam recebendo a atenção de um fisioterapeuta antes de começar mais um dia de labor extenuante e mal remunerado. Logo pensei, o patrão querendo que suas peças durem mais. Nada de melhora de qualidade de vida pra eles. E o pior que eu ainda fico discutindo essas coisas no almoço com meu pai, que é completamente cético quanto a qualquer mudança. Ainda argumentei que no primeiro mundo não tem mais trabalhador tão aviltado, daí tive que ouvir que alguém tem que limpar a latrina e esse alguém é do terceiro mundo. Ora bolas, carambola, quase me estraga o almoço. Mas bravamente engoli mais essa, concluí que era caso perdido levantar esse tema e segui garfando mais um pouco de arroz com feijão.
Disse o profeta: Não me passa pela cabeça que pudesse ser de outra maneira. Eu já ando entregue não é de hoje. Se tudo está como está e já não resta mais nenhuma esperança, senão viver, parece que encontrei algum equilíbrio neste floresta de sentimentos e atos. Também já não espero de ti resposta, por gesto ou palavra. Não deposito mais em ti o grande peso de ser a única e verdadeira saída da solidão. És, como eu, uma simples pessoa atravessando o mar da vida. Tens aí tuas vaidades e outros tropeços, mas nenhum deles significa a impossibilidade de convívio. Mesmo que tenhas traçado uma linha que me afasta dos teus ideais de convívio amoroso, permanecemos em contato e gerando linhas na trama um do outro. E assim serei cada dia menos príncipe. E nossas mãos poderão permanecer unidas ainda um pouco mais.

Nilo Neto abre o coração a Carla

Nilo Neto

uma palavra que resuma a vida:

evolução

uma cor:

azul escuro

uma flor:

jasmim

se foste tatuar algo hj de noite, o que faria:

Carla

familia é:

um nó

da sua adolescencia, o que lembra com alegria:

o primeiro beijo

e com tristeza:

fazer regime

universo é:

infinito

e o que seria, este infinito:

o que não tem começo nem fim, mas evolui

hum

para se estar feliz é necessário:

estar distraído

um dia de festa que lembras:

formatura do I grau, ganhei uma garelli de presente mas não conseguia acreditar, fiquei de boca aberta, literalmente

uhauha

o que acaba com a sua festa:

acabou a cerveja, acabou a amizade

rerererrrere

ahukkhuahkuakhuhkuahku

para cacete, é serio

sério, peraí

se sentir excluído, menosprezado

um arrependimento:

ter saído de perto de ti

amigo é quem:

ultrapassou a barreira dos dias bons e suportou os dias de chuva, resumindo, amizade leva tempo

vc não suporta quem:

gente autoritária e mau humorada

um dia da vida que poderia ter sido diferente:

fizemos uma festa grande aqui em casa pra comemorar a classificação do avaí para a série a, só que o leão conseguiu perder

que é a morte:

o desaparecimento da individualidade

uma viagem especial:

a ida ao Piauí, que foi o lugar mais longe que eu já fui

uma conquista importante:

participar da luta antimanicomial em Brasília

o que ficou no quase:

viajar pros EUA pra conhecer o trabalho do movimento dos usuários de lá

pra finalizar,

um filho é:

sacanagem essa pergunta hein

um filho é o maior sonho de todos

pra realizar esse teria que conquistar muitas outras coisas
Disse o profeta:

Para cada cinco minutos de bom senso razoável, comunhão com o fluxo gregário e sentido da vida mais ou menos dado pelos motores sociais, pelos amores, pela História, pelo trabalho e sobrevivência digna de nota, existem cinco horas de boçalidade catártica, sensações doentias de não ter nada a ver com o mundo, ceticismo ranzinza, carência de afeto patética, demência de massa, incapacidade de comunicação, cozinha dos instintos, lapsos de consciência, tédio gratuito, tristezas de raiva, revolta que vira melancolia apática.

Fausto Fawcett - Básico Instinto, Ed. Relume Dumará, RJ, 1992
Disse o profeta: Tempo sem aparecer. Tempo pra tecer e esquecer. Juntar os cacos e ventos. Reconheço que não restou muita ilusão. E de que é feito esse espaço? Pra ficar me lamentando, uma hora fica repetitivo. Esse é um peso que não desejo carregar. O eterno retorno bate suas asas de inseto infernal sobre os dias. Coragem pra escrever. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que nada permaneça. Deixar aqui esses bits & bytes é como pichar o muro da rua aonde a gente mora. Ter que passar ali todo dia. Ver a própria letra dizendo a mesma frase. Ao mesmo tempo, aqui pareço mais vivo. Aqui, afinal, resta a essência. Tenha a santa paciência.
Disse o profeta:

oncotô?
quemcossô?
doncovô?

e tantas perguntas que não querem calar...
já faz um bom tempo que não me arrisco aqui por estas bandas. até porque a sensação do "nada a dizer persiste". então vou pelo estilo passinhos de bebê e fico por aqui.

desabafffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffo

Disse o profeta:

Não importa nada do que eu possa dizer se estou preso na certeza de que meus adversários são muito mais poderosos que eu. E exerceram seu poder fazendo-me ter vergonha de ser quem eu sou e me arrancaram o prazer de caminhar entre as pessoas e desarmaram todas as minhas defesas (que afinal residiam somente na esperança de viver num mundo melhor). Porque estiquei minhas asas e parti rumo ao sol e mais uma vez, cera derretida, sinto o sabor acre do solo. Sofro da doença dos sonhadores. Tenho necessidades primárias de liberdade. E mais uma vez averiguo que não possuo par neste mundo. Que na minha ânsia de negar as necessidades mundanas fui tornado pária. Que devo mais uma vez, cabisbaixo, retomar a faina do impossível.
Que escrever, criar, ainda proporciona um sopro dessa paixão, mas que mesmo assim podem e serão usadas contra o autor na primeira oportunidade em que se tornar inconveniente ao meio, aos pseudo-amigos e à sempre óbvia família.
Explicar? Impossível. O gosto dessas verdades que desfilaram nuas sob meus olhos extasiados, carregarei para o vazio. E nem tem nada de tão extraordinárias. Seria um prazer debulhá-las aqui. Mas parece gesto vão e minha mesquinhez não permite gestos grandiosos. Nada diria que já não foi dito. Teria apenas a impressão iluminada de tê-las sentido eu. Ficaria mais tarde com o cansaço interior tão típico ao exercício da poesia. Certeza de nada. Nem dever cumprido, nem descumprido. Prazer de ter dado uma caminhada. Ou ter ouvido certo canto melodioso de pássaro estrangeiro.
Mas que nada. Resta-me o borbulhar de angústias em dia de feriado. Enterrado no desejo de desaparecer e saber-me irremediavelmente atrelado ao custo inalcançável de viver. Venham musas refrescar-me com o vento de suas asas. Anda comigo poeta, lembra-me que tudo vale à pena, se a alma não é pequena. Dai-me tua passagem pelo planeta como prova de que existiram oásis de lirismo nessa pútrida sociedade de hipócritas escrotos. Senão deixa-me o nó na garganta. E o grito engolido pela milionésima vez:
- Vão todos para as putas que vos pariram!

seu céu

Disse o profeta:

Dois que se destacaram esta semana.
Vítimas dos juízes da normalidade de plantão.

Um por ser gay e estar comemorando o dia das bruxas, acabou sendo assaltado e infelizmente, morto.Chocou-me mais uma vez a dupla violência a que estamos expostos nessa ilha das ditas magias.Uma, da morte pela mão que segurava o revólver.Outra pelo preconceito que julgava diminuido, sabe como é, Floripa anda crescidinha...Mas nesse caso não. Meus tios, primos, mãe e pai, todos dizendo que o falecido vivia num talsubmundo, que procurou e achou...Eu que pouco entendo do mundo, fiquei imaginando o rapaz em questão:fazendo suas festas, vivendo seus amores, realizando seu trabalho...Não consegui alcançar a maldade.

O outro destaque fica pra um amigo que vive em prisão domiciliar faz anos.Este recebeu o veredito de louco. Estava caminhando pela rua, quando se viudesacompanhado, uma raridade, e não contou tempo, ficou peladão pra celebrar a liberdade. Acabou sendo conduzido pela polícia até sua casa. Quase foi parar no hospício. Fica meu abraço comemorativo.

E a lembrança do poetinha, Vinícius de Moraes, no famoso Samba da Bênção: Feito essa gente que anda por aí/Brincando com a vida/Cuidado companheiro!/A vida é pra valer. É poetinha a vida é pra valer e enquanto não for disseminada a tolerância,o respeito e a alegria, fica valendo o recado: cuidado companheiro!
Eu que me achei feliz um dia desses, que acordei achando que finalmente tinha chegado o meu momento, que a lucidez havia decretado o fim do preconceito, tive que tomar minha dose de cicuta e pisar no freio rumo a felicidade, mais uma vez.
E que venham os juízes para decretar minha ousadia ensandecida, mais uma vez,por estas palavrinhas amorais...


Disse o profeta:

No outro domingo conheci dois casais de franceses aqui na ilha. Lamentei profundamente que nenhum deles arranhasse o português ou espanhol. Eu, por outro lado, tenho aquele francês de rótulo de vinho. Mais umas sacanagens e umas palavras colhidas em filmes, ainda raros, nos cinemas da cidade. Estabelecemos então, para tristeza de todos, o inglês como forma de comunicação.
Disse-me o gaulês de olhos azuis, que vinha da terra de Asterix (Bretagne), enquanto eu namorava a mesa, cheia de deliciosas tortas típicas francesas, doces e salgadas.
Falamos de geografia, biografias, música, trabalho e política, quando sem mais delongas, apresentou-se o convidado de honra da festa. Um tal vinho francês. Foi nesta hora que comecei a gemer. Meio sem querer, meio de piada, mas absolutamente sincero. Que maravilha.
E, claro, diante da situação, de barriga cheia de quitutes franceses, já meio alto do bordeaux que rolava, comecei a filosofar. Meu novo amigo, digamos que se chamasse Jean-Paul, era especialista em fazer forros de casas. Rufér, como dizia. Já da quarta geração de ruférs. Tinha as mãos e a agitação física de quem trabalha pesado. Mas tinha acesso a: boa comida, boa casa, bons vinhos (not every day, disse o risonho amigo).
Ensinou-me que para saber se um vinho era bom, bastava ver se o rótulo estava mofado e rasgado pela ação do tempo. Daí para formularmos maneiras de falsificar, foi o tempo de mais uns goles.
E eu, o sonhador bobalhão, pensava no trabalhador brasileiro. Nem boa cachaça, quanto mais bom vinho.
Uma garrafa daquelas, devia custar meio salário-mínimo brasileiro.
Daí que os caras do PT saiam roubando adoidado, quando sentem o gostinho do poder, da grana, tem uma distância.
Tem?

Nilo Neto
Disse o profeta:

Não é que eu não esteja feliz com meu novo amor. Que é uma pessoa tão doce e inteligente e dedicada. Mas vira e mexe me volta o gosto da maldita. E por não ter absolutamente nenhuma notícia dela, fico fantasiando palavras, encontros, sinto saudade dos dias cheios que ela, afinal, me deu.
E estou lendo esse livro do Nabokov, e não, não é o Lolita. Chama-se Pnin. E eis a passagem que me fez lembrar dela...

"Foi levá-la ao ônibus e voltou a pé através do parque. Bastaria ficar com ela, guardá-la - como ela era - com sua crueldade, a sua vulgaridade, os seus deslumbrantes olhos azuis, a sua miserável poesia, os seus pés grossos, e a sua alma impura, seca, sórdida e infantil. E de repente ele pensou: "Se as pessoas se reencotram no céu (não acredito nisso, mas vamos supor) como poderei impedir de rastejar por mim, sobre mim, a alma murcha, indefesa e trôpega dela? Mas esta é a terra, eu estou curiosamente vivo e há alguma coisa em mim e na vida..."

Por enquanto é isso. E como será que está esse tal de mundo que fica fora de mim?

zip zap plufft uarkkkk tim tim after forever

Disse o profeta:

Vou revelar, meus comparsas de sangue e escuridão, estou adentrando no estranho mundo das after do cenário undertudo de floripa. É isso mesmo, sou um velho vampiro aceito no mundinho obscuro desses novos mortos-vivos da ilha de todos os terrores.

Quero escarificar meu coração imortal e entediado.
Quero sanguinho novo entre meus dentes amarelados.
Quero beijar uma bonequinha de luxo, com piercing na língua e maquiagem borrada.
Quero lamber peles brancas de menininhas, tatuadas com dragões e elfos multicoloridos.
Quero esquecer minha dor num copo de coquinho com gelo.
Quero ouvir roquenrou dos anos oitenta na companhia de meus camaradas. Parceiros no ofício da sobrevivência na noite eterna dos seres sem alma.
Quero trocar minha velha capa negra empoeirada por uma camiseta com desenhos estranhos e nomes conhecidos.

Vou em busca da minha própria lenda, tentando esquecer qualquer resquício de luz que habitava meu passado de homem comum.

Mais uma dose, é claro que eu tô afim...
A noite nunca tem fim.
Porque que a gente é assim?

Hunter

Disse o profeta:

Proferi tiros a esmo no meu rifle de caçar búfalos. Gastei toda a minha munição querendo te derrubar na pradaria. Tudo em vão. Fui o caçador mais perfeito nos meu sonhos imaturos. Perdi a fé na minha própria capacidade de realizar o que achava saber fazer de melhor. Agora restamos eu, uma fúria sem nome e a tua lembrança, na minha sala de troféus imaginários. Vai por aí, maldita. Segue desalojando corações solitários de sua solidão. Quem sabe um dia a gente se encontra por aí. E ainda me reste uma última bala na agulha pra acabar de vez com essa dor. Ou não.
Disse o profeta:

Ei maldita. Tu me fizeste sentir que eu sou o maior perdedor do mundo. Que eu sou mais um bebum,frustrado, sem talento, futuro ou dinheiro.
E eu sou mesmo quase tudo isso. Só que eu tenho um jeitinho especial com as palavras, moro numa das cidades mais bonitas e desejadas do Brasil e não preciso me sujeitar a um patrão filhodaputa para ganhar uma merreca e comer merda durante o mês, com uns filhos pentelhos e uma patroa reaça e histérica.
Então, maldita, estou por aqui esperando o ovo ficar no ponto, pra descascar e comer. Vou mamar minha cervejinha e escrever mais uma crônica que não vai ser publicada em nenhum jornal ou revista. Não vou ser famoso, nem vou ficar triste quando me esquecerem de vez. Não vou ter nenhum brilho especial, nem vou deixar saudades.

patinando

Disse o profeta:

Oi amada

Eu tive uma noite miserável ontem. Fiquei em casa, sozinho e bebendo a minha cerveja. Até aí, tudo certo. Digo, sábado é a noite mais óbvia da semana e normalmente só tem gente óbvia na rua. Como eu sou um vagabundo consumado, gosto mesmo de sair nos dias em que as pessoas sérias e honestas estão em suas casas, dormindo cedo pra produzir mais e melhor e alimentar o sistema, nosso lindo sistema que a todos proteje e enche de vida. Mas como eu tenho aí essa renda e faço uns bicos no computador e fico escrevendo alguma poesia barata e esperando que a minha morte seja rápida e venha daqui a algum tempo, fico em casa sábado a noite.
Mas como eu ia te falando, eu estava aqui em casa, tomando a minha 8ª ou 9ª lata, quando desandei num berreiro. Nem sei bem porque começou. Sei que não parava mais. E me deu até um pouco de medo. Daí fiquei pensando em ligar pra alguém pra falar e ouvir alguma besteira e desviar um pouco a atenção dessa dor, mas só tenho um amigo, por sinal lá da época de s. leo, que eu posso mesmo ligar a qualquer hora de qualquer dia. Mas o lazarento não estava ou não atendeu. Daí eu tomei mais umas e acabei dormindo. Será que essa dor não vai acabar nunca, é? Vai ver, como tu dizes, que o amor é um tipo de doença, de obsessão, sei lá. Uma saudade sem cura, essa. Caramba... Hoje de certo que pode acontecer de novo. Já acordei com vontade de chorar. Fico aqui quieto, assistindo qualquer merda na TV e esperando que esse urubu, essa vontade de desparecer, desapareça. Desaparece?
Te cuida. Que bom que tu estás aí. Gosto de ti.

Nilo Neto
a espera

Nilo Neto

Ressaca

Disse o profeta:

A casa onde eu morava nessa época tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro fornecia um abrigo para muitas ressacas, algumas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa época em que eu engolia pílulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro à cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Dava descarga na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saía, eu sabia que estava salvo. Aí dormia com as paredes azuis, azuis, azuis, curando-me.

Outra característica da casa eram as batidas na porta, de mulheres desagradáveis, às três ou quatro horas da manhã. Certamente não eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota, eu achava que de algum modo elas me traziam aventura. A verdade mesmo é que a maioria delas não tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu não fazia muita força para ir pra cama com elas.
Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida, mudou bastante.

Charles Bukowski

Dark Side of The Moon

Disse o profeta:

Seres da noite são sombras. São translúcidos e vagam pelas ruas. Alimentam-se do vento, da vida que resta nos recém-chegados. Dos que estão sendo iniciados. Seres da noite são ocos. Não tem reflexo no espelho porque já não possuem alma. Seu desejo foi lentamente sendo engolido pelas mentiras da noite. Promessas de felicidade jamais realizada. Sonhos que desapareceram com a chegada do sol. Nenhum vigor lhes resta. Apenas mais uma noite, mais um falso brilho.

Essa noite resolvi ficar em casa. E meus fantasmas todos se reuniram para celebrar a morte da minha última quimera. E rondam minha cama enquanto vejo o branco do teto. Uns sorriem, outros ficam somente me olhando sem nenhuma expressão. Somos velhos conhecidos. Não sinto falta deles, se desaparecem. Não sinto nada. Sou o homem de gelo. Estou preso ao eterno momento do desencontro. Sei que nada mais me espera. E não me importo. Amanhã a noite talvez eu saia. Amanhã talvez seja o dia da minha morte. Mas eu às vezes penso que não vou mais ter o benefício do descanso final. De perder minha memória, meus tropeços e fantasmas. De me desintegrar no nada.

Quando eu ainda era um ser do dia, tinha a impressão de que me viam. Que se importavam com minhas opiniões e desejavam minha ajuda para ser mais um dente da engrenagem. Lentamente fui sendo empurrado para fora. Eu falava nas horas erradas. Eu dizia verdades que dóem. Eu deixava os outros saberem o que eu via e ouvia. Eu lia os corações e acreditava no crescimento de cada um e do grupo. Mas isso deixava todos com raiva e medo. E aí me empurravam pra fora de suas vidas. No fim, desisti de participar. Me deram de presente um rótulo. Louco. E automaticamente, tudo o que eu fazia ou dizia, não tinha mais nenhuma ressonância. Foi assim que me transformei num ser da noite. Assim eu morri estando vivo.

rage

Disse o profeta:

Todos temos o direito de sermos e termos na medida exata de nossas capacidades. Menos quando se fala no amor. Neste universo são outras as leis e a medida do que seremos cobrados pela justiça divina é a do nosso egoísmo. Isso é definitivo. Eu vou pro céu, maldita!
A minha mão toca a mão de deus e do diabo, quando te digo: vem. Porque em mim moram o ódio profundo e o amor sem fim.
Dividido e reagrupado pela dor e pela luz do sol, toda força que emanar do meu coração de mil terremotos. Cuida que tua alma esteja guardada nessa hora. Minha fúria é autêntica e eficaz. Seu destino é certo e não há tempo para arrependimentos.
Tudo o mais é superfície.
Todo dia será o último.
E a dor, eternamente cobrada pelos anjos do senhor.